Orwell contra o fascismo

Futebol e política sempre andaram lado a lado, misturando paixões e visões de mundo e desta vez a literatura também entrou nessa complexa equação. No último encontro entre os times da Lazio e Cagliari no futebol italiano, torcedores de extrema direita da Lazio produziram um adesivo com a foto de Anne Frank vestindo a camisa do principal rival, o time de Roma – a menina judia que ficou conhecida mundialmente por seu diário narrando os horrores do nazismo – com os seguintes dizeres “Anne Frank incentiva a Roma”. Como uma tentativa de zombar da torcida adversária associando negativamente a imagem da menina judia ao rival e propagando a violência.

Esse não foi o primeiro caso de violência e racismo que a torcida da Lazio fez e infelizmente não será o último no futebol mundial, mas escrevo isso porque a resposta do futebol italiano ao fascismo e ao racismo foi a literatura. Como reposta aos atos brutais da torcida fascista em vários jogos, antes do início de cada partida foi lido trechos do diário de Anne.

Esse caso talvez ilustre os dilemas e as respostas que vivemos atualmente; tem sido cada vez mais comum abrirmos os jornais e nos depararmos com casos de racismo, xenofobia e violências de toda ordem em vários lugares do mundo e talvez a literatura e os livros guardem as chaves para que casos como esse nunca mais se repitam.

Recentemente a Companhia das Letras editou uma coletânea de George Orwell intitulada “O que é fascismo e outros ensaios”, vinte e quatro textos inéditos do autor reunidos pelo jornalista Sérgio Augusto; textos escritos entre 1938 e 1948, observam com profunda lucidez e astúcia as profundas transformações da metade do século XX. Textos que acompanham a ascensão de Hitler e Mussolini e os descaminhos da revolução de outubro.

São crônicas, resenhas literárias, cinematográficas, ensaios políticos e jornalísticos que nos apresentam um Orwell observando os caminhos do fascismo e do totalitarismo na Europa. O autor de 1984 escreve com grande lucidez e independência intelectual, em tempos de barbárie e o pensamento crítico andando no compasso do stalinismo e o marxismo ortodoxo da União soviética.

Orwell crítica obras de Joseph Conrad, Jack London, Aldous Huxley, Oscar Wilde, H. G. Wells, T. S. Eliot e Yevgeny Zamyatin, com principalmente três pontos áureos, uma resenha sobre “Minha luta” de Hitler, uma resenha sobre o “Grande ditador” de Chaplin e um ensaio sobre as principais literaturas destópicas chamado “profecias do fascismo” e, sempre tentando extrair daí uma interpretação desses tempos conturbados. O livro sempre preocupado com o futuro político da Europa não poupa críticas as nações imperialistas, e as diferentes visões de socialismo de sua época.

O relato do jogo de futebol italiano nos alerta a atualidade do fascismo, e os textos de Orwell talvez não ensinem como combater esse espectro que ronda a humanidade. Orwell como poucos, constrói e reconstrói caminhos entre a cultura e a política tentando compreender como cada qual se influencia.

Apesar de os textos aparentarem ser datados, a atualidade dos ensaios do autor de Revolução dos bichos é impressionante; livro de leitura obrigatória em tempos de Donald Trump. Orwell ainda é um interprete de nossa época, nesses ensaios nós observamos que ele completou a sua tarefa de dar o texto político o status de arte.

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Crime e castigo: uma jornada de redenção espiritual

“ – Será que matei aquela velhota? Matei a mim mesmo e não a ela! Acabei comigo de uma vez só e para todo o sempre! (…)

-O que faço agora?

– O que faz? (…) Vai agora, neste mesmo instante, e fica no cruzamento de ruas, faz uma mesura, beija, primeiro, a terra que maculaste, e depois saúda o mundo inteiro, todas as quatro partes, e diz para todos em voz alta: “Eu matei”. Então Deus te dará nova vida.”  (pág. 521)

Existem crimes “justificáveis” pelas circunstâncias? Existem pessoas que se mortas fariam o mundo um lugar melhor? E um criminoso que comete um assassinato desejado por muitos e age quando ninguém mais tem a coragem de agir, é tão cruel quanto um criminoso qualquer? Qual o castigo justo para um crime cometido? Será que assassinos tem direito a uma redenção? É possível acreditar que os homens podem se arrepender verdadeiramente de atos cruéis e violentos?

Todas essas perguntas são de difícil resposta, e acompanham a humanidade desde os primórdios, muitos buscam as respostas na religião, outros na filosofia, na psicologia, na sociologia (…) A resposta obviamente não é consensual, nem de fácil reflexão, contudo outro campo do saber: a literatura, nos ajuda a buscar essas respostas e nos convida a pensar sobre temas tão espinhosos.

O Crime acompanha a humanidade desde os tempos pré-históricos, da mesma forma, cada sociedade lidou ao longo da história de maneira diferente com os criminosos – essa parcela da sociedade que não segue as normas comuns de convivência “harmoniosa”. Talvez a forma mais dramática de conduta criminosa seja o assassinato – ou seja, tirar deliberadamente a vida de um semelhante. A tradição bíblica relata o que seria o primeiro homicídio da história da humanidade: retratado no livro do Gênesis – é o episódio envolvendo a morte de Abel por seu irmão Caim devido a sentimentos como o ciúme e a raiva[1], condenado por Deus, Caim foi banido da vida em grupo e se tornou um exilado. O simbolismo dessa passagem demonstra como a derrocada moral da sociedade estava condicionada a expansão das atitudes criminosas, e também como a humanidade desde o princípio teve que decidir castigos e penas para punir aqueles que violassem as regras de convivência.

Contudo é possível relativizar o assassinato ou ele é um grande crime imperdoável? E os grandes homens da história que cometeram vários homicídios, mas visavam atingir um objetivo maior?  (reforçando a ideia de que os fins justificam os meios) e as pessoas que agem impelidas por uma necessidade material urgente? Será que a miséria justificaria um ato de extrema violência?

Dostoievski, escritor russo nascido em Moscou, aborda todas essas questões em seu livro “Crime e Castigo” publicado originalmente em 1866. Apesar de já transcorridos mais de um século e meio, a história de redenção de um jovem criminoso continua a ser um livro essencial para se compreender a natureza humana.

Rodion Românovitch Raskólnikov protagonista da história é um ex-estudante de direito que vive em um minúsculo e paupérrimo quarto alugado na cidade de São Petersburgo, seu cotidiano é marcado pela miséria material, já que suas únicas fontes de renda são o dinheiro enviado por sua mãe e algumas traduções e aulas particulares que oferecia. Contrastando com a miséria e o fracasso de sua vida profissional possui um enorme ego e uma mania de grandeza considerável, pois se enxerga como um grande homem predestinado a grandes contendas. Entretanto, de onde viria impulso material inicial para a realização destes grandes feitos? A solução encontrada foi o assassinato de Alena Ivanovna uma velhinha usurária que morava sozinha e possuía um enorme cofre escondido com muitas economias guardadas.

Durante o tempo em que planejava a contenda, Rodion passa por um profundo debate moral interno sobre seu feito, para justificar seu futuro homicídio, ele formula a tese de que grandes homens não podem se deixar abalar por crimes comuns e pequenos e que assim como Napoleão e inúmeros outros grandes homens ele estava destinado a um grande feito, não podendo se deixar abalar por um mísero assassinato de uma velhinha que não tem ninguém no mundo, afinal o dinheiro dela “estaria em mãos melhores com ele”. O planejamento e execução são simples: ele entra no apartamento e a golpeia a machadadas, contudo ao ser flagrado acaba assassinando também a inocente Isabel Ivanovna – sobrinha de Alena. Posteriormente ao ser quase surpreendido na cena do crime por terceiros foge sem praticamente nada do dinheiro que pretendia furtar, dessa forma se encontra em um duplo dilema: precisa escapar de uma possível investigação policial e continua numa situação de penúria financeira.

O assassinato e a “ação do livro” se desenrolam logo nos primeiros capítulos, pois a principal questão que perpassa todo o restante da obra é o sentimento de culpa de Rodion, – às vezes a narrativa se resume a monólogos internos por períodos muitos extensos e somos inseridos no drama psicológico do protagonista compartilhando de suas angústias – ele tem pesadelos, sofre surtos de loucura, sente uma necessidade urgente de confessar a alguém o crime cometido, ao mesmo tempo em que sabe que não pode ser capturado, pois não existem provas de seu ato criminoso. O antagonista da história – Detetive Porfiry Petrovich – ao não poder incriminar Rodion se utiliza de um jogo psicológico para fazer o jovem se entregar.

Seu grande dilema é sobreviver com o peso da culpa nos ombros (Rodion se decepciona ao perceber que não faz parte do rol dos grandes homens da história, capazes de justificar atos cruéis em nome de um ideal ou de um projeto futuro e descobre que o assassinato o afeta profundamente), ou confessar seu crime, pagar por seus pecados e tentar se redimir. Um personagem que exerce uma enorme influência em sua decisão é Sófia Marmêladov, uma moça doce e ingênua que devido a uma série de infortúnios familiares se prostitui para fugir da pobreza extrema, ela se torna sua confidente e Rodion encontra nela um motivo para se perdoar e tentar viver uma nova vida.

Dostoievski apesar de retratar uma Rússia do século XIX paupérrima, em que infortúnios se acumulam sobre grande parte da população e que a miséria, a fome, a pobreza e a degradação moral estão em todo o lugar, consegue evocar um otimismo sobre a condição humana, Rodion se redime pelo amor e ao pagar por seus pecados em um exílio na Sibéria é acompanhado pelo amor incondicional de Sofia, que apesar de toda a degradação moral de seu corpo prostituído, consegue manter sua alma pura e intacta, e sua compaixão foi capaz de resgatar Rodion da loucura da culpa de um crime terrível. “Crime e Castigo” é uma belíssima (e triste ao mesmo tempo) história de recomeço, um verdadeiro renascimento espiritual:

“Eles queriam conversar, mas não conseguiam. As lágrimas lhes turvavam os olhos. Estavam ambos pálidos e magros, mas em seus rostos doentes e lívidos já brilhava a aurora do revigorado futuro e da completa ressurreição para a nova vida, fora o amor que os ressuscitara. Um coração encerrava inúmeras fontes de vida para o outro”  (pág. 678)

[1] E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. Gênesis 4:3-8

GRANDES “ANTI-HERÓIS” DA LITERATURA

Segundo a wikipedia o “Anti-herói é o termo que designa o protagonista que não possui as virtudes tradicionalmente atribuídas aos heróis.” Muitas vezes em algumas narrativas o protagonista perfeito e extremamente virtuoso não é carismático o suficiente para cativar o público, dessa forma quem acaba se tornando o personagem preferido são os anti-heróis – aqueles sujeitos que não estão muito preocupados em seguir um padrão moral muito elevado. Tanto no cinema, como na literatura e até mesmo nos desenhos animados é possível observar personagens considerados anti-heróis que se tornaram muito queridos pelos espectadores: Han Solo (da franquia Star Wars – personagem interpretado por Harison Ford que rouba a cena de Luke Skywalker), Jack Sparrow (protagonista com o típico perfil de anti-herói- da franquia ‘Piratas do Caribe’), recentemente o sucesso do personagem Deadpool transportado dos quadrinhos da Marvel para os cinemas nos mostrou que as pessoas não estão mais com paciência para super-heróis muito certinhos. E quem não se recorda do Pica-pau? (o exemplo mais politicamente incorreto dos desenhos infantis).

Na literatura personagens marcantes que protagonizaram clássicos inesquecíveis são caracterizados por possuírem este perfil. Pessoas que praticaram ou praticam atos moralmente reprováveis esporadicamente e que não buscam necessariamente um objetivo nobre, mas que devido ao carisma acabam tendo seus atos aprovados pelos leitores. Essa identificação com personagens falhos que às vezes acertam e às vezes erram se dá justamente por serem versões mais realistas da natureza humana, também  muito sujeita a falhas e equívocos. Afinal, é mais fácil se identificar afinal com um “Han Solo” (um sujeito ganancioso e egoísta, mas que depois se arrepende e volta para salvar seus amigos) do que com um Superman (todo poderoso e perfeito).

Nossa proposta, portanto, é montar uma lista com os cinco maiores (e mais carismáticos) anti-heróis da literatura:

5º LUGAR: Tom Sawyer – As aventuras de Tom Sawyer (Mark Twain)

O personagem infantil de Mark Twain é uma criança mentirosa, preguiçosa, que foge frequentemente da escola, mas que conquistou a simpatia de todos. Um dos personagens mais marcantes da literatura “infanto-juvenil” norte americana, Tom Sawyer vive o cotidiano do sul dos Estados Unidos pré-guerra civil, um lugar com várias particularidades regionais e vivencia uma série de aventuras: testemunha um assassinato, descobre um tesouro enterrado, fica preso em uma caverna(…). Muito da simpatia do personagem se deve a sua “malandragem”: apesar de pouco assíduo as aulas possuía um conhecimento não-formal – oriundo da vivências “nas ruas” que o ajudava a lidar com o complicado mundo adulto.

4º LUGAR: Pedro Bala – Capitães da Areia

Outro personagem infantil, Pedro Bala é a criança líder dos Capitães da Areia, menino abandonado vive em um trapiche em Salvador com várias outras crianças de rua: Gato, Boa-vida, Sem-pernas, João Grande, Querido de Deus, Professor. Cada uma com suas características particulares e que possuem em comum o abandono. Para sobreviver praticam furtos, mas Pedro Bala impõe um rígido código moral às crianças que precisam respeitar sua autoridade, cumprir algumas normas de convivência e estão proibidos de roubarem os colegas. Seu papel de liderança é reforçado pela sua força (afinal era o maior capoeirista da cidade) e pelo carisma (trata todos como irmãos mais novos).

3º LUGAR: Arséne Lupin – Arséne Lupin: O ladrão de casaca (Maurice Leblanc)

O maior ladrão de todos os tempos! Arsène Lupin é a tentativa francesa de ludibriar Sherlock Holmes[1]. Um sujeito galanteador, lutador de jiu-jitsu, ilusionista e dotado de uma inteligência extraordinária que simplesmente zomba das autoridades europeias em plena Belle Époque: foge da prisão pela porta da frente, rouba castelos medievais de milionários excêntricos, furta joias reais e colares trancados em cofres invioláveis, nunca é pego em flagrante e está sempre um passo a frente de seus perseguidores.  Sua simpatia se deve essencialmente ao seu perfil “Bom vivant”: não é o típico ladrão ganancioso, mas que somente “livra as pessoas de bens desnecessários”, também desaprova a violência e nunca rouba os mais pobres.

2º LUGAR: Capitão Nemo – 20.000 léguas submarinas / A ilha misteriosa (Jules Verne)

Capitão Nemo aparece primeiramente no livro 20.000 léguas submarinas de Jules Verne, um sujeito misterioso, misantropo, extremamente inteligente e recluso que vive em um submarino elétrico – O Nautillus – isolado do mundo exterior, apenas aparece na superfície para abater grandes navios encouraçados no oceano Atlântico, contudo seu passado não é revelado no primeiro livro e não conhecemos em um primeiro momento as razões de seu ódio à civilização. É somente quando publicado “A ilha misteriosa” que conhecemos sua identidade oculta: O príncipe Dakkar um indiano que descontente com a guerra e o imperialismo resolve lutar contra a dominação britânica em sua nação, entretanto sua revolta é derrotada e ele perde esposa, filhos e toda a sua família, a partir desse incidente ele decide “declarar guerra ao mundo” e viver isolado em solidão na sua “fortaleza submarina”.

1º LUGAR: Robin Hood – As aventuras de Robin Hood (Alexandre Dumas)[2] 

O primeiro lugar não poderia deixar de ser do maior anti-herói de todos os tempos! Personagem envolvido em lendas e histórias anglo-saxões sua existência real é um mistério para os historiadores. Seus feitos foram transmitidos através de poemas e da tradição oral pelos povos habitantes das florestas de Barnsdale e Sherwood. Alexandre Dumas adaptou essas histórias e criou um Robin Hood típico de seu romantismo: (quase um D’artagnan de arco e flecha) galanteador, extremamente habilidoso e dono de uma liderança quase que inapta, ele lidera um bando de proscritos contra a tirania do xerife de Notingham. Sua fama de “bom ladrão” se deve ao fato de nunca recorrer à violência, oferecer um banquete a todos os nobres, eclesiásticos e normandos que furtava pelas florestas, mas que ao encontrar um sujeito pobre ou necessitado não pensava duas vezes em oferecer seus serviços e sua ajuda.

[1] Em uma das histórias de Lupin ele chega a encontrar o famoso detetive inglês “Herlock Sholmes” e não desperdiça a oportunidade de furtar seu relógio.

[2] A obra foi publicada postumamente. Howard Pyle escritor e ilustrador norte-americano também criou uma versão literária infanto-juvenil de Robin Hood, mas que não chega perto da sofisticação do estilo romântico de Dumas.

Marcelo Moutinho

Marcelo Moutinho, um dos organizadores de Conversas de Botequim, é autor dos livros: Ferrugem (Record,2017), Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006), Memória dos barcos (7Letras, 2001) e do infantil A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013). Organizou a coletânea de ensaios Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010), além das antologias O meu lugar (Mórula, 2015), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005) e Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), das quais é também coautor.

Moutinho participou de várias coletâneas, entre elas O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + Bonus track (Record, 2012), Como se não houvesse amanhã – 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana (Record, 2009) e Dez cariocas (Ferreyra Editor, Argentina, 2009). E nós tivemos o prazer de trocar algumas ideias com o escritor sobre o livro Conversas de Botequim e sua carreira.

LC– De onde surgiu a ideia do livro?

MM – A ideia do livro foi do Henrique Rodrigues e nasceu de episódio curioso. O Henrique organizou, há poucos anos, uma coletânea de contos inspirados em canções dos Beatles. Na ocasião, a Prefeitura do Rio promoveu um debate sobre a obra, o que foi noticiado na coluna do Ancelmo Góis, no jornal O Globo. Ao ler a nota, o jornalista Ruy Castro envio mensagem à coluna fazendo um pequeno protesto. Ele argumentava que, se fossem contos inspirados em Noel Rosa, tudo certo com o apoio da Prefeitura do Rio. Mas que não estávamos em Liverpool. Henrique recebeu a crítica com bom humor e acabou acolhendo a ideia. Então me chamou para organizar a antologia a quatro mãos.

LC – Por que Noel? Qual é a importância dele para o Brasil atual?

MM – Noel foi um dos mais extraordinários artistas brasileiros. Ao abdicar dos arroubos linguísticos que caracterizaram a música popular até sua época, apostando numa dicção próxima à da coloquialidade, ele revolucionou a lírica da canção brasileira. O uso de diálogo em “Conversa de botequim” e da emulação da gagueira em “Gago apaixonado” são exemplos de sua originalidade. Isso sem mencionar a questão temática. Com “Mulato bamba”, de 1931, Noel é o primeiro compositor, no universo do samba, a abordar a homossexualidade.

Além disso, tinha uma impressionante capacidade de trânsito entre espaços geográficos e grupos sociais nem sempre próximos. Ele nasceu numa família de classe média, mas frequentou o subúrbio e as favelas da cidade. O objetivo não era “levar cultura”, mas aprender, dialogar. Suas canções surgem justamente da interseção entre asfalto e morro, numa relação que não é de solapamento, e sim de troca. Num momento como o que vivemos, de cisão política e social, de completa incompreensão da alteridade, a obra de Noel é, mais que atual, necessária.

LC– Falar de Noel Rosa é falar sobre a cidade do Rio de Janeiro, uma cidade em profunda transformação e desigualdade. Como você compreende o Noel cronista da vida Carioca?

MM– Noel registrou muitas dessas transformações. O aparecimento do filme sonoro, em “Não tem tradução”, é um exemplo. A veia de cronista aparece também no registro tipos da cidade, como o João Ninguém (“que não é velho nem moço / come bastante no almoço / pra se esquecer do jantar”) e a Maria Fumaça (“Perdeu o rompante/ Foi presa em flagrante roubando um baralho / Não faz mais conflito/ Está no distrito lavando o assoalho”). E na referência a espaços como a Lapa, a Penha e, claro, a Vila Isabel. A experiência do trânsito pelas diversas cidades que coexistem dentro do Rio de Janeiro – e aqui lembro a máxima de Marques Rebelo: “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro” – serve como matéria-prima para suas canções, que de certa forma fazem uma crônica musical do Rio de Janeiro.

LC – O livro tem uma bela diversidade de autores, como foi o processo de juntar todas essas pessoas em conjunto com Henrique Rodrigues?

MM – A proposta era fazer uma seleção que refletisse a variedade de registros da literatura brasileira contemporânea. Por isso reunimos escritores oriundos das diferentes regiões do país, de gerações e propostas estéticas também díspares. Queríamos que o diálogo entre conto e canção fosse igualmente um encontro de estilos, vivências, trajetórias.

LC – Você faz parte de uma geração de outros escritores como Luiz Antônio Simas, Fernando Molica e muitos outros que tem privilegiado a vida cotidiana, as esquinas do dia a dia, as conversas de botequim, os dramas cotidianos da vida urbana carioca. Como você vê o conto nesse contexto, ele é o lugar da vida cotidiana na literatura?

MM – No meu caso, sim. Mas cada contista tem sua obra, sua proposta estética e temática. De minha parte, gosto de trabalhar com um universo de personagens desglamourizados. Em “Ferrugem”, por exemplo, os protagonistas são uma trocadora de ônibus, um cover do Roberto Carlos, a caixa de supermercado… Os contos narram histórias aparentemente banais, em cujo interior há, no entanto, tensões, dramas, dores, epifanias. Na orelha do livro, o Alberto Mussa destacou que o assunto dos contos é “a paisagem humana, a vida que passa”. Acho que definiu o livro com precisão. Gosto de trabalhar com essa lente sobre as pequenezas.

LC – Não podemos deixar de ler seu trabalho sem pensar no Samba e na cultura popular do Rio. Qual é o papel do Samba na sua literatura?

MM – Há algumas semanas, no Café Literário da Bienal, o mediador do debate me perguntou qual seria o papel do escritor em uma escola de samba e como essa vivência – hoje, sou diretor de ala no Império Serrano e no Império da Tijuca – se reflete em meus textos. A segunda parte da questão me pareceu é simples de elucidar. Tenho tentado, livro após livro, seja no conto ou na crônica, trazer um pouco do universo do samba – e do carnaval – para o âmbito da literatura. Até porque esses assuntos em geral são tratados como algo externo à nossa produção ficcional, embora façam parte do cotidiano de milhares de brasileiros e representem uma viga fundamental, originalíssima, da cultura que construímos aqui. Creio que por várias razões. Desde a visão do saber não acadêmico ou de origem não europeia como elemento alheio às “grandes questões literárias” até o distanciamento que muitas vezes os escritores mantêm com relação a tal universo. Por localização geográfica ou simples (e legítima) falta de interesse

Difícil mesmo é dar conta da primeira pergunta, que agora você retoma. Sempre procurei seguir o conselho dos sambistas mais antigos, que falam em “pisar devagarinho” quando você chega numa roda ou num terreiro de escola. E, mesmo tendo conquistado certa intimidade com o mundo do samba e do carnaval, a premissa de estar ali como escritor em nenhum momento sobrepujou a presença como componente. No entanto, é claro que o olhar do ficcionista permanece. O senhor que limpava, com o rodo, o banheiro da quadra inspirou um dos personagens de “A palavra ausente”. O primeiro desfile no Império Serrano se transformou em crônica de “Na dobra do dia”. As caminhadas pela Avenida Edgard Romero, em Madureira, entre os camelôs da Estrada do Portela, as idas ao barracão onde são produzidas as alegorias, as conversas regadas a cerveja com gente  que guarda a memória do samba e do subúrbio, certamente se refletem nos textos de “Ferrugem” e dos demais livros.

Como se vê, não tenho a resposta definitiva. Mas, nessa época tão pródiga em certezas absolutas, até que é bom ficar cavoucando uma interrogação.

LC – Para finalizar Marcelo, tem alguma novidade que você pode contar para gente?

MM – Lancei dois livros este ano – “Ferrugem” e “Conversas de botequim” –, de modo que os novos trabalhos por enquanto estão ainda na fase de projeto. Há um trabalho a produzir, ao lado do Luiz Antônio Simas, sobre a vedete Zaquia Jorge, que ficou conhecida como “A Estrela de Madureira”. Comecei a trabalhar nos contos de um próximo livro, que ainda vai demorar. E ando com bastante vontade de escrever crônicas. Quem sabe não volto em breve?

A homenagem ao Poeta da Vila

“Nascido em 1910 no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro, Noel de Medeiros Rosa viveu apenas por 26 anos. Esse curto período foi suficiente para que inscrevesse seu nome na história da cultura brasileira, que revolucionando a lírica de nossa canção. Em 259 composições, Noel evocou os personagens e o cotidiano da cidade sob um registro originalíssimo. Ao abdicar dos arroubos linguísticos que na época distinguiam a música popular, fez da simplicidade a marca de suas letras”

No ano passado parte do mundo da literatura e do cânone se deparou com um Nobel de literatura – prêmio máximo – dado a um músico por excelência; um absurdo para alguns, a mais bela homenagem a poesia musicada para outros. Em terras tupiniquins, Marcelo Moutinho e Henrique Rodrigues juntos com a Mórula Editorial, organizaram uma bela homenagem aos 80 anos do Poeta da Vila – Noel Rosa um dos maiores compositores de samba da cultura brasileira.

Conversas de Botequim – 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa é uma ode a multiplicidade e a beleza da obra de Noel Rosa, cronista da vida cotidiana do Rio de Janeiro; o livro congrega 20 autores das mais variadas gerações e filiações literárias, com grandes mestres da canção e das letras como Nei Lopes e Aldir Blanc.

Onde ambos prestam uma homenagem oculta a João Máximo nas suas respectivas epígrafes, que junto com Carlos Didier foi biógrafo de Noel e fundamental autor para pensar a história do sambista e como ela se confunde com a história do Rio de Janeiro.

Os contos são os mais variados, com referências diretas as letras do compositor de Vila Isabel, outros são referências a sentimentos e a momentos das letras, alguns são referências claras aos títulos, até Noel se transforma em personagem em um deles.

A diversidade de transpor a poesia e a música para a forma do conto é retrato da própria diversidade dos autores e das histórias colocados nessa edição. Nas páginas desse livro os autores captam a obra de Noel Rosa em seus diversos caminhos e mantém o olhar de cronista do autor captando grandes temas do contemporâneo.

Os contos têm valor estético sozinhos, mas sem dúvida esse é um livro para ser ouvido, antes ou depois de ler cada conto vale a pena escutar a música, sem dúvida será uma outra experiência, que vai estabelecer conexões e novas descobertas sobre a obra de Noel.

“O Sol é para todos”: A persistente tensão racial nos Estados Unidos

“Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar. E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo” (p.143).

Escrito por Harper Lee, “O Sol é para todos” (ou no seu título original “To Kill a Mockingbird” [1]) é considerado um dos maiores clássicos da literatura americana do séc. XX [2]. O livro foi publicado em 1960 e venceu o principal prêmio literário Pulitzer no ano seguinte, além disso, deu origem a um filme homônimo vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado em 1962. Sua escritora era conhecida por ser “autora de um livro só” por não ter publicado outras obras[3], e veio a falecer, aos 89 anos, em 2016 [4].

A temática do livro é o racismo, historicamente arraigado na sociedade estadunidense e problema social que permanece gerando conflitos nos dias atuais (vide os últimos acontecimentos com a marcha da supremacia branca[5]), raiz de grande tensão no país. Essa pode ser visualizada nos dados sobre violência, que tem os negros como maiores vitimas, principalmente nos casos de abuso policial:

“Segundo os levantamentos do “Mapping Police Violence”, negros têm até três vezes mais chances de serem mortos por policiais do que brancos. Em casos de mortes em que a vítima não estava armada, essa possibilidade é até cinco vezes maior[6]

Negros são oito vezes mais propensos a serem assassinados do que brancos nos EUA e 12 vezes mais vulneráveis do que um indivíduo num país desenvolvido” [7]

Sabemos que a violência contra a população negra foi institucionalizado. A lei de segregação racial permitia a exclusão de negros de locais e serviços públicos. Somente com os movimentos dos direitos civis nas décadas de 50/60 que houve o fim do segregacionismo. Mas, de acordo com o Flávio Francisco (USP – especialista em História dos EUA) mesmo que tenha mudado de forma, o racismo continua a estar presente na sociedade americana:

“O racismo anterior (que culminou nos movimentos dos direitos civis da década de 60) estava na lei, agora está no aparato da guerra às drogas e nas instituições, com o perfil racial, prisões privadas que lucram com o sistema e uma justiça mais severa com os negros e latinos” [8].

A partir disso, enxergamos o papel do romance de Harper Lee na denúncia de um dos problemas sociais mais persistentes na sociedade americana. Mesmo após tantos anos de sua publicação ainda é ferida aberta.

A narrativa se apresenta de forma bem simples, isso porque a história é contada a partir da perspectiva de uma criança. Jean Louise, conhecida por Scout, é uma menina de 6 anos, esperta, aventureira, teimosa e com o gênio difícil. Uma personagem apaixonante, pois mesmo com sua pouca idade é destemida, disposta a enfrentar qualquer autoridade e curiosa em entender o mundo a sua volta[9].

O enredo gira em torno da família de Scout: seu pai viúvo, Atticus Finch, seu irmão mais velho Jem, além de Calpúrnia, empregada negra que acompanha a família há anos. Seu pai, advogado, é designado para um caso polêmico: a defesa de um negro acusado de estuprar uma moça branca. Esse caso é o que movimenta o romance trazendo a tona discussões sobre racismo e injustiça.

Por se tratar de uma história contada por uma criança, temas bem pesados como racismo, preconceito, abuso sexual, discriminação racial são tratados com certa inocência, uma perspectiva bem interessante, pois se trata de um outro ângulo da história. Além disso, vemos um tratamento dado às mulheres típico da sociedade da época, Scout sofre por não se vestir como uma moça, falar palavrões e se meter em brigas.

A princípio parece se tratar de uma história sobre os hábitos citadinos. Nessa primeira parte do livro somos apresentados aos moradores da cidade de Maycomb[10] do estado de Alabama, nos Estados Unidos durante a década de 1930. Cidade que mesmo após a abolição da escravatura apresenta diversas tensões raciais (inclusive pertencente a um dos estados mais segregacionistas e racistas do país). Essa parte do livro está centrada nas lembranças de Scout e suas travessuras ao lado do irmão e de seu amigo Dill (sobrinho da vizinha que passa as férias na cidade). Em meio às brincadeiras de criança, Harper Lee traça o perfil da sociedade, vemos através de situações cotidianas uma sociedade que se mostra tradicionalista, cheia de costumes e preconceitos.

Na segunda parte do livro, somos envolvidos pelo caso jurídico mais diretamente. A família Finch começa a ser atingida pelas consequências de estar na defesa de um negro, por exemplo, as crianças passam a ser discriminadas por causa do papel do seu pai no caso. Mesmo com sua pouca idade, Scout tenta entender o que tem se passado:

“- O que é estuprar? – perguntei naquela noite.

[…] Ele deu um suspiro e disse que estuprar era ter contato sexual com uma mulher à força e sem consentimento dela.” (p.170)

Aqui vemos como Atticus se posiciona como pai, mesmo se tratando de crianças, ele não esconde a verdade de seus filhos. Por isso Atticus é aquele personagem que cativa. Pai amoroso, a todo momento instrui seus filhos a serem respeitosos e agirem de maneira correta, além disso, demonstra grande coragem em uma época que insinuar estar do lado dos negros colocava-o em risco de vida.

A passagem do julgamento é uma das mais tensas, somos apresentados à acusação e defesa. E mesmo com todos os indícios apontando que os brancos estavam mentindo, vemos uma sociedade que se coloca contra os negros em qualquer situação.

“As testemunhas de acusação […] se apresentaram diante dos senhores e deste tribunal com a cínica segurança de que seus depoimentos não seriam postos em dúvida, certos de que os senhores aceitariam a tese deles, a diabólica tese de que todos os negros mentem, todos os negros são, por principio, imorais, que nenhum deles deve ser deixado perto de nossas mulheres” (p.254).

Enfim, em meio a simplicidade de ver o mundo pelos olhos de uma criança, somos levados a enxergar uma sociedade injusta e intolerante, incapaz de quebrar seus paradigmas. Os casos atuais de racismo no país mostram que é um problema estrutural, nem mesmo a eleição de um presidente negro no país foi capaz de modificar esse cenário, ainda hoje, a discriminação permeia diversos aspectos da vida dos negros americanos.

[1] Faz referência a uma passagem do livro que fala sobre um rouxinol (Mockingbird).  Atticus fala para as crianças que não se deve atirar nesses pássaros. “O rouxinol nada faz a não ser cantar para o nosso deleite. Não destrói jardins, não faz ninho nos milharais, ele só canta. Por isso é um pecado matar um rouxinol.” (p.118)

[2] http://guiadoestudante.abril.com.br/blog/estante/9-livros-que-todo-estudante-norte-americano-deve-ler-na-escola/

[3] “Desde então nunca mais lançou um livro até que fosse descoberto o ‘Vá coloque uma vigia’, escondido numa caixa, e lançado em 2015”

[4] http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/02/1741080-harper-lee-ganhadora-do-pulitzer-por-o-sol-e-para-todos-morre-aos-89.shtml

[5] https://oglobo.globo.com/mundo/dois-protestos-contra-a-favor-de-supremacia-branca-tomam-boston-21724865

[6] http://exame.abril.com.br/mundo/entenda-a-crescente-tensao-racial-e-violencia-nos-eua/

[7] https://oglobo.globo.com/mundo/eua-taxa-de-assassinato-de-negros-oito-vezes-maior-que-de-brancos-19683842.

  [8] http://exame.abril.com.br/mundo/entenda-a-crescente-tensao-racial-e-violencia-nos-eua/

[9] Temos vários questionamentos de Scout durante a história, alguns são dirigidos ao seu irmão. Nesses diálogos conseguimos captar a percepção das crianças sobre o funcionamento daquela sociedade:

“- Jem, o que é uma criança mestiça? – perguntei

– É metade branca, metade negra. Você já viu uma, Scout. Sabe aquele entregador da farmácia de cabelo encarapinhado? Ele é metade branco. São uma gente triste…

– Por quê?

– Porque não são nem uma coisa nem outra. Os negros não os aceitam porque são metades brancos, e os brancos não os aceitam porque são metades negros, então eles não são nada (p.202)”

[10] Cidade fictícia.

O triste fim das revoluções – resenha de ‘A Revolução dos bichos’ 

“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez, mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido na Índia em 1903 onde seu pai trabalhava para o Império Britânico, se mudou para Inglaterra com sete anos de idade. Tornou-se um dos jornalistas/escritores mais influentes do século XX. Sua trajetória pessoal, política e literária se confundem em sua obra: sobreviveu entre moradores de rua e andarilhos nas grandes cidades europeias, conviveu com os trabalhadores das minas de carvão de Wigan, e até mesmo lutou no front da Guerra Civil espanhola contra os fascistas. Foi um dos mais ferrenhos críticos do regime stalinista, sendo um dos primeiros a denunciar os expurgos, as perseguições, a instituição de um “estado policial” e o autoritarismo crescente no regime soviético.

Orwell escreveu inúmeras obras importantes, seus dois grandes sucessos literários são 1984 e Revolução dos Bichos[1], ambos os livros têm como tema central o totalitarismo – o primeiro retrata um futuro distópico no qual a sociedade é vigiada e controlada pelas teletelas e pelo “Grande Irmão” – a segunda obra é uma fábula que faz referência direta aos acontecimentos derivados da Revolução Russa a partir de uma história que se passa em uma fazenda.

Como jornalista/escritor foi muito influenciado por Jack London e o perfil do escritor que imerge na realidade que pretende retratar, devido a isso grande parte de suas obras são autobiográficas, seu período como andarilho, mendigo e lavador de pratos ocasionou o livro “Na pior em Paris e em Londres” (1933); o tempo em que conviveu com os trabalhadores das minas de carvão na Inglaterra repercutiu no livro “O caminho para Wigan Pier”(1937); e a partir de suas experiências nas trincheiras espanholas durante a guerra contra as forças do General Franco escreveu “Lutando na Espanha[2] (1938)”.

Esta sua experiência na Guerra Civil espanhola lhe rendeu um ferimento na garganta que ajudaria a matá-lo posteriormente em 1950, pois agravou uma insuficiência pulmonar que o autor já possuía desde criança. Foi também neste período que Orwell teve contato com o “modus operandi” do governo soviético, ao chegar a Catalunha – lugar de concentração das forças republicanas anti-franquistas – ele se alistou em uma milícia trotskista denominada POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) e lutou durante algum tempo no front de batalha, contudo no período em que sofreu o ferimento e se afastou das trincheiras para se cuidar no hospital, o apoio soviético aos republicanos chegou, entretanto Stalin devido à estratégia geopolítica[3] de “convivência harmoniosa com as potências imperialistas” estava pouco interessado em contribuir com as milícias armadas socialistas, comunistas e anarquistas mais radicais.

 A chegada do exército vermelho representou na verdade uma onda de perseguições a líderes anarquistas e comunistas não alinhados com os soviéticos e o próprio Orwell escapou por pouco de ser preso e fuzilado (contudo, relata com tristeza como inúmeros camaradas que abandonaram todo o seu conforto em seus países de origem para lutar pelos republicanos serem acusados de conspiradores fascistas e condenados pela polícia secreta soviética). É durante este momento que o autor se desfaz de todas as ilusões acerca do regime soviético e se torna um ferrenho crítico do stalinismo denunciando a traição dos princípios da Revolução de 1917 por Joseph Stalin.

Escrito depois de retornar da Espanha, Revolução dos Bichos (publicado em 1945) é um livro pequeno, com um pouco mais de 100 páginas, porém a simplicidade da narrativa não diminui a importância e a genialidade da história. A narrativa se tornou provavelmente a fábula política mais famosa do século XX e descreve como um sonho revolucionário de liberdade e igualdade se transformou em um regime totalitário, sanguinário e tão opressor quanto o regime anterior pré-revolucionário.

A Granja Solar (fazenda fictícia no qual a história se passa), assim como a Rússia Czarista era um ambiente de profunda desigualdade, pobreza e miséria, um local em que as classes menos favorecidas alimentavam um profundo desejo de mudanças na ordem social. Assim como em 1917 quando a instabilidade política se tornou insustentável e o antigo regime russo ruiu, certo dia o fazendeiro Sr. Jones dono da Granja após uma noite de bebedeira se descuida da alimentação dos animais, este fato é considerado a “gota d’água” e ele é atacado pelos animais, liderados pelos simpáticos porquinhos Bola de Neve (Trotsky) e Napoleão (Stalin) sendo, por fim expulso da fazenda.

Finalmente depois de anos de subjugação perante os humanos, os animais se libertam de seus grilhões e podem agora construir uma sociedade livre, igualitária e sem a submissão aos homens. A fazenda deixa de se chamar Granja Solar e se torna a “Fazenda dos bichos”. (União Soviética). Os porcos, animais mais inteligentes e letrados definem as normas que irão passar a reger o novo governo dos bichos: a principal regra inscrita na parede do celeiro e repetida pelas ovelhas (animais menos inteligentes e que simbolizam um “povo que se comporta como massa de manobra”) é a máxima:

Todos os animais são iguais

Posteriormente, o Sr. Jones se alia a outros fazendeiros humanos e tenta retomar o controle da fazenda (é uma referência ao período da Guerra Civil Russa que só terminaria em 1921 com a vitória dos bolcheviques[4]). Os animais mais inteligentes – os porcos – lideram a resistência, Napoleão começa a concentrar poderes e a demonstrar seu lado autoritário, expulsa Bola de Neve da granja e altera os relatos da revolução omitindo a participação de seu companheiro e o retratando como um traidor.

A partir de então a escalada autoritária só aumenta, se utilizando de uma força policial repressiva (os fortes e temidos cachorros da fazenda – referência à polícia secreta soviética) Bola de Neve (Stalin) subverte por completo os ideais revolucionários: se autoproclama líder máximo da granja, começa a racionar a comida dos animais, se utiliza de uma propaganda ideológica para frisar que os animais estão usufruindo de boas condições de vida (este papel cabe a outro importante personagem na trama o porquinho “Garganta” que tem uma boa oratória e é o braço direito de Bola de Neve) e os obriga a trabalhar incessantemente. Ficamos com a sensação de que a sociedade dos animais fica cada vez mais parecida com a vida da antiga granja solar, apenas a exploração dos homens é que foi substituída pela dos porcos.

Em um momento da história (um dos mais impactantes) quando os animais passam a questionar os desmandos de Bola de Neve ele se utiliza da força policial para reprimir todos os divergentes e uma série de animais é expulsa ou assassinada, é nesta hora que o cavalo Sansão (uma referência ao trabalhador soviético): um animal muito trabalhador e leal morre ao ser levado por uma carrocinha, por estar doente, e não poder mais ser aproveitado para o trabalho. – É a partir de então que os animais mais novos e remanescentes percebem ao olhar para a parede a seguinte inscrição (agora levemente alterada):

Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.

Toda a fábula de “A revolução dos bichos” foi construída em cima dos acontecimentos decorrentes da revolução de 1917 e existe uma série de referências aos principais personagens protagonistas da revolução[5], contudo, esta história pode ser lida também como uma metáfora simplificada sobre como o poder corrompe. Uma crítica atemporal ao autoritarismo, ao egoísmo, a corrupção e sobre como as revoluções tendem a um triste fracasso quando o sentimento de ambição e a busca pelo poder, pela vantagem, levam as lideranças políticas, a esquecer dos princípios e motivos que os levaram até a Revolução.

  • Post scriptum:

Orwell chegar a fazer uma paródia, uma “Versão animal” do hino da internacional socialista chamando a canção de “Bichos da Inglaterra”:

Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Escutai a alvissareira
Novidade que virá.

Mais hoje, mais amanhã,
O tirano vem ao chão,
E os campos da Inglaterra
Só os bichos pisarão.

Não mais argolas nas ventas,
Dorsos livres dos arreios,
Freio e espora enferrujando
E relho em cantos alheios.

Riqueza incomensurável,
Terra boa, muito grão,
Trigo, cevada e aveia,
Pastagem, feno e feijão.
(…)

Lutaremos por esse dia
Mesmo que nos custe a vida

Referências:

http://blog.estantevirtual.com.br/2016/01/21/sete-curiosidade-e-sete-livros-sobre-george-orwell/

http://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2016/08/5-licoes-que-revolucao-dos-bichos-nos-ensinou.html

http://biblioteca.folha.com.br/1/14/biografia.html

[1] O título da obra em inglês é “Animal Farm”, a tradução literal para português seria “Fazenda dos animais”, provavelmente a publicação no Brasil como “Revolução dos Bichos” pretendia dar um apelo maior a obra.

[2] O título original da obra em Inglês é “Homage to Catalonia”.

[3] Na derrota da revolução espanhola o PC Espanhol teve um papel chave. O PCE atacou com a polícia e seus agentes assassinos os revolucionários de todos os matizes que não concordavam com sua política de submissão à burguesia e manutenção do capitalismo. Dirigido pela polícia política de Stálin, que havia enviado enormes quantidades de agentes, mandou prender, fuzilar, assassinar e torturar os opositores de esquerda. – Andreu Nin, o líder do POUM, foi um dos muitos sequestrados e assassinados pelos agentes de Stálin, como anarquistas, trotskystas, sindicalistas e socialistas de esquerda. Disponível em: http://www.marxismo.org.br/content/revolucao-e-guerra-civil-na-espanha-1936-1939/

[4] – A Guerra civil russa ocorreu durante o período de 1918 a 1921. As forças contrarrevolucionárias apoiadas por outras nações capitalistas que tinham medo da expansão dos ideais socialistas foram derrotadas pelo exército vermelho bolchevique.

[5] Marx é retratado na história a partir do “porco Major” – um animal velho e que tinha um sonho de ver os animais livres da dominação dos homens, morre antes de ver a revolução acontecer, mas deixa a sua influência intelectual sobre os animais mais jovens.

Curiosamente Lênin não é retratado na história por nenhum personagem.

rev 2

A Festa da fresta

A Festa Literária Internacional de Paraty de 2017 foi uma festa diferente, sob muitos aspectos. Uma festa que homenageou Lima Barreto, escritor negro, carioca do início do século XX e que acompanhou a primeira república com um olhar crítico de um cronista, viu as principais transformações que a cidade do Rio de Janeiro passou naquele momento. Um escritor que como poucos, conseguiu captar as principais tensões de um Rio escravocrata e elitista e que construiu sem dúvidas, uma das principais interpretações desse momento e que só agora conseguimos prestar – mesmo que pequena – uma homenagem ao escritor do subúrbio do Rio.

A rica escolha do homenageado da festa pela curadora Joselia Aguiar, não foi o único desafio, este ano vimos uma Flip mais diversa, com mais mulheres do que todos os anos e com tema do racismo e suas variadas e complexas formas sendo debatido e refletido.

Sem dúvida a escolha de Lima anima debates fundamentais para a sociedade brasileira, como a própria escrita do autor nos coloca. Essa festa como nenhuma outra, aproveitou as frestas que a sociedade brasileira tem para compor um rico debate sobre os desafios da cultura brasileira, e de reavivar um autor fundamental para todos aqueles que querem construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Esse ano a festa sofreu com a crise e a crise se transformou em oportunidade de construir uma festa mais compacta, dando centralidade aos debates e perdendo a opulência que afasta os leitores. Uma festa que teve uma programação paralela intensa, com diversas casas propondo importantes debates seguindo a verve da programação principal.

A escolha de Lima é sem dúvida uma escolha política que reafirma debates e promove uma festa mais feminina e negra, sem perder a profundidade literária e sem dar espaço a espetáculos vazios para agradar o cânone. Sem sombra de dúvida uma festa que honrou a prosa e a crônica de Lima, que cantou um Brasil que precisa se redescobrir a partir de sua obra. Sem perder a universalidade, trazendo vários autores internacionais que sempre foram uma marca da festa.

A festa movimenta o mercado literário trazendo lançamentos e esse ano Lima Barreto foi a marca, com relançamentos e novas edições, vários livros de crítica e análise de sua obra e com destaque à biografia editada pela cia das letras e escrita por Lilia Moritz Schwarcz “ Lima Barreto: Triste visionário”.

Mas toda fresta, toda vereda é só um pequeno caminho que indica que ainda há muito a construir. A Flip ainda é um espaço para poucos, infelizmente isso é reflexo de um país que tem muito a caminhar no acesso à cultura e principalmente no acesso à leitura; os livros são uma chave para se compreender o mundo, o perigo desses espaços são transformar o livro em um lugar distante do grande público, onde “só eruditos” possam chegar nele.

Esse talvez seja o desafio da Flip para os próximos anos, elevar a radicalidade do projeto literário de Lima Barreto na própria estrutura da festa. Sem dúvida a Flip deste ano foi especial e tem muito a construir para o futuro.

 

 

“Nós não somos nada nesta vida” – A denúncia do preconceito racial em Clara dos Anjos

Cassi partira, fugira… Agora é que percebia quem era o tal Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) (p. 136)

Clara dos Anjos é um desses livros que esconde a genialidade na simplicidade. Uma história curta, com poucos personagens, mas que extrapola as cerca de 120 páginas do romance. Nele encontramos o que há de melhor em Lima Barreto: as descrições da paisagem do subúrbio carioca, uma narrativa sobre o cotidiano da vida “das pessoas comuns”, o tom irônico e ácido sobre um Rio de Janeiro fragmentando e desigual e uma profunda crítica contra o racismo cínico tipicamente brasileiro.

Afonso Henriques de Lima Barreto nascido no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881, filho de mulatos livres e bem instruídos (algo incomum durante sua época) – seu pai era tipógrafo da imprensa nacional e a mãe professora primária – foi o homenageado da 15ª Flip (Feira Literária Internacional de Paraty). A escolha, mais do que merecida, corrige parcialmente uma injustiça histórica, afinal Lima Barreto considerado um dos mais importantes escritores brasileiros sempre teve o talento subestimado por seus contemporâneos e recebeu pouco reconhecimento em vida – candidatou-se, por exemplo, em 1919 a vaga na Academia Brasileira de Letras, mas seu pedido foi sequer considerado!

Lima Barreto entendia que sua origem social e condição de mulato impediam a sociedade brasileira de enxergá-lo como um intelectual, e se tornou um dos maiores denunciadores e combatentes do racismo na literatura. Ingressou na Escola Politécnica, mas não se formou, abandonou o curso de engenharia e passou a atuar como jornalista e cronista na mídia impressa, também atuou na secretária de guerra na seção burocrática após ser aprovado em um concurso público em 1903. Sua primeira obra como escritor e que o rendeu um relativo reconhecimento foi “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909) que retrata a história de um mulato que tentou se formar e se tornar “doutor”, pois achava que assim não seria discriminado, contudo sua obra máxima e mais importante é o grande clássico da literatura brasileira: Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) que narra o cotidiano de Policarpo Quaresma, subsecretário do Arsenal de Guerra, um patriota apaixonado pelo Brasil e pelos livros, que mora no Rio de Janeiro durante o governo de Floriano Peixoto.

O livro ‘Clara dos Anjos’ foi publicado postumamente em 1948 e foi a última obra escrita do autor antes de sua morte em novembro de 1922, é uma história com traços “naturalistas-realistas” bem marcantes, durante a leitura fica perceptível como o “caráter” dos personagens seria determinado pelo “ambiente/meio” que crescem e vivem. O tom ácido e critico do autor às injustiças e a pobreza da periferia carioca também percorre todo o livro, o subúrbio é chamado por Lima Barreto de “refúgio dos infelizes”, o lugar de união de todos os desafortunados, em que: “por esse intricado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro”. (p.81).

A protagonista Clara é uma mulata[1], pobre e ingênua que mora no subúrbio carioca com seus pais. Sua família vivia uma vida pacata e harmoniosa, seu pai era um humilde trabalhador dos correios, e a mãe cuidava dos afazeres domésticos e zelava pelo bem-estar da família. Tudo na rotina deste “pobre lar honesto” se transforma quando ela conhece Cassi Jones em uma roda de violão numa festa local. Este sujeito “um típico malandro carioca” é filho de pais bem abastados e que “não queria nada com a vida”, vivia na vadiagem e seduzindo jovens moças incautas. Várias de suas investidas anteriores já tinham ocasionado em tragédias familiares, contudo, ele não se emendava, pois, sua mãe “superprotetora” sempre o acobertava.

O livro narrado em terceira pessoa apresenta ao leitor um aspecto de “tragédia anunciada”, afinal desde o início da narrativa já conhecemos a índole de Cassi e sabemos quais são suas intenções com a inocente Clara, só nos resta mesmo esperar pelo pior. A moça que idealizava um romance capaz de vencer as barreiras de cor e classe, ao se descobrir grávida, faz planos de fugir e viver o amor “impossível”, entretanto é surpreendida com a fuga e o sumiço imediato do rapaz.

Arrependida e arrasada emocionalmente Clara finalmente desperta para a realidade e percebe que: “A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) Ele contava, já não se dirá com o apoio, mas com a indiferença de todos pela sorte de uma pobre rapariga como ela. (p. 136).

Ela pensou em se matar, mas por fim decide contar aos pais sua situação de “desgraçada de honra” e abandonada pelo namorado. Sua mãe sempre muito honesta e correta imediatamente opta por ir se acertar com a família do Senhor Azevedo (Pai de Cassi Jones). Ao solicitar o casamento, Clara é enxotada pela Dona Salustiana (mãe do rapaz), que considera um insulto a remota possibilidade de seu filho se casar com uma “mulatinha”, afinal:  “-Ora, vejam vocês, só! É possível? É possível admitir-se meu filho casado com gente dessa laia.. .Qual!… Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina – que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!.” (p. 142). Ao se deparar com tal reação e pensar no vexame que sofrera Clara  finalmente passa ter “noção exata de sua situação na sociedade” (p. 143). Aquela dolorosa cena final é descrita por Lima Barreto de forma primorosa e é definitivamente um dos encerramentos mais emocionantes da literatura brasileira

“Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um grande acento de desespero:

-Mamãe! Mamãe!

-Que é minha filha?

-Nós não somos nada nesta vida”

(pág. 144)

[1]“Clara dos anjos foi o primeiro romance a ter como protagonista uma mulher negra. Ele gritou contra o racismo, contra a corrupção, contra o apadrinhamento político e o poder político nas mãos das mesmas famílias sempre, que a gente vê até hoje. Se a sociedade da belle époque tivesse ouvido o Lima Barreto, não estaríamos vivendo o horror que vivemos no Brasil” — disse Luciana Hidalgo.

Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/se-tivessem-ouvido-lima-barreto-na-epoca-nao-estariamos-vivendo-esse-horror-no-brasil-diz-luciana-hidalgo-21642041#ixzz4oHeo1XVM

https://educacao.uol.com.br/biografias/afonso-henriques-de-lima-barreto.

http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/o-que-lima-barreto-pode-ensinar-ao-brasil-de-hoje/

O Velho e o Mar: Uma história sobre desafios, esperanças e a própria sensibilidade humana

 “Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo” (p.32).

Escrito por Ernest Hemingway[1] em 1952, “O Velho e o Mar” é apontado como uma de suas obras-primas, responsáveis por seu Prêmio Pulitzer em 1953 e o Nobel de Literatura em 1954[2], prêmios dedicados aos mais magníficos trabalhos literários. Essa obra de grande sensibilidade tem origem em sua vivência em Cuba, país que morou por mais de 20 anos (entre 1939 e 1960) [3] e o cenário que se desenrola essa história.

O livro é bem curto, pouco mais de cem páginas, mas consegue envolver o leitor de uma maneira que terminada a leitura a reflexão se prolonga e faz repensar os significados de suas entrelinhas. Ainda que indique uma história carregada de simbolismo, a narrativa se apresenta de forma simples, leve e fluída. Criamos grande cumplicidade com o protagonista, sentindo suas angústias, medos, esperanças, e o acompanhando nessa jornada tão solitária. Participamos então de uma incrível aventura em alto-mar, que consegue ser mais que uma história de pescador, pois em todos os momentos nos remetemos aos próprios desafios que enfrentamos ao longo da vida. Por isso mesmo, se trata de uma leitura capaz de despertar tantas emoções.

“O Velho e o Mar” conta a história de um pescador chamado Santiago. De origem simples, é um pescador experiente e solitário, que passa pela pior tragédia para qualquer pescador, não consegue pescar por um longo período de tempo, sendo então motivo de zombaria em sua comunidade. Até um jovem amigo e aprendiz, teve que abandoná-lo por ordem de seus pais que temiam que o azar do velho fosse contagioso. Assim, julgado e isolado, o velho Santiago mesmo após 84 dias sem conseguir pescar sai perseverante em busca de um milagre: “o que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas, quem sabe? Talvez hoje. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado” (p.35).

Nesse dia, se depara com um peixe anormalmente grande que se apresenta como um desafio a ser vencido. Com 5 metros de comprimento, a batalha com esse peixe, maior que o próprio barco, é o que move essa história.

Afastando-se cada vez mais da costa, Santiago persegue o peixe, luta que se prolonga por vários dias, exaurindo suas forças e as do peixe. O personagem luta contra a fragilidade de seu corpo velho, cãibras, fome, cansaço, sono. Mas apesar de todas as adversidades, nos dá uma lição de nobreza, dignidade e justiça. “Gostaria de poder alimentar o peixe”, pensou. “ele é como se fosse meu irmão. Mas tenho de matá-lo e ganhar forças para fazê-lo” (p.62).

Durante a batalha, podemos ver a própria humanidade do personagem, que se conecta a natureza e tem máximo respeito por seu oponente. Santiago tem consciência da própria insignificância diante da natureza, seus valores o fazem pensar que para pescar esse maravilhoso espécime é necessário ser merecedor. “Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui” (p.91).

Apesar de muitas vezes se sentir enfraquecido diante desse desafio, Santiago tem ambições, quer mostrar seu valor e capacidade através de uma luta justa, da qual a paciência é um dos seus maiores trunfos. Enquanto espreita no barco, seus pensamentos voam para longe, refletindo sobre sua existência, seus feitos na juventude e os sonhos que ainda conserva. Assim, mesmo se sentindo pequeno diante da imensidão do mar, está disposto a firmar seu lugar no mundo.

A história de Hemingway é repleta de sutilezas, a sua essência não repousa no ato de “conquista” ou mesmo, em vitórias ou derrotas, e sim em quais os caminhos percorridos, quais sacrifícios são feitos em seu nome, principalmente como nos dedicamos, sentimos esperança, nos sentimos merecedores e dignos de alcançar êxito diante dos desafios. Por isso mesmo que este livro nos permite pensar na vida, especialmente nos obstáculos e dificuldades. A nossa postura diante desses episódios revela muito do que somos como seres humanos, é nesse sentido que a figura do velho Santiago nos inspira. Ainda que a velhice e o cansaço apresentem grande peso em sua condição, ele não hesita antes de entrar na maior batalha da sua vida. Sendo assim, o desfecho dessa obra nos é surpreendente, o autor nos convida a desvendar nossa própria força, capacidade de resistir e alcançar nossos sonhos, ao mesmo tempo nos previne que há sempre novos desafios à frente.

[1] Já resenhamos aqui “Adeus às Armas”: https://letracapitularblog.wordpress.com/2017/03/26/adeus-as-armas-a-inevitabilidade-da-guerra-e-a-fragilidade-do-amor/

[2] The Nobel Prize in Literature 1954 – http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1954/

[3] No rastro de Hemingway em Cuba: http://jornalggn.com.br/blog/jota-a-botelho/o-rastro-de-hemingway-em-cuba