A Festa da fresta

A Festa Literária Internacional de Paraty de 2017 foi uma festa diferente, sob muitos aspectos. Uma festa que homenageou Lima Barreto, escritor negro, carioca do início do século XX e que acompanhou a primeira república com um olhar crítico de um cronista, viu as principais transformações que a cidade do Rio de Janeiro passou naquele momento. Um escritor que como poucos, conseguiu captar as principais tensões de um Rio escravocrata e elitista e que construiu sem dúvidas, uma das principais interpretações desse momento e que só agora conseguimos prestar – mesmo que pequena – uma homenagem ao escritor do subúrbio do Rio.

A rica escolha do homenageado da festa pela curadora Joselia Aguiar, não foi o único desafio, este ano vimos uma Flip mais diversa, com mais mulheres do que todos os anos e com tema do racismo e suas variadas e complexas formas sendo debatido e refletido.

Sem dúvida a escolha de Lima anima debates fundamentais para a sociedade brasileira, como a própria escrita do autor nos coloca. Essa festa como nenhuma outra, aproveitou as frestas que a sociedade brasileira tem para compor um rico debate sobre os desafios da cultura brasileira, e de reavivar um autor fundamental para todos aqueles que querem construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Esse ano a festa sofreu com a crise e a crise se transformou em oportunidade de construir uma festa mais compacta, dando centralidade aos debates e perdendo a opulência que afasta os leitores. Uma festa que teve uma programação paralela intensa, com diversas casas propondo importantes debates seguindo a verve da programação principal.

A escolha de Lima é sem dúvida uma escolha política que reafirma debates e promove uma festa mais feminina e negra, sem perder a profundidade literária e sem dar espaço a espetáculos vazios para agradar o cânone. Sem sombra de dúvida uma festa que honrou a prosa e a crônica de Lima, que cantou um Brasil que precisa se redescobrir a partir de sua obra. Sem perder a universalidade, trazendo vários autores internacionais que sempre foram uma marca da festa.

A festa movimenta o mercado literário trazendo lançamentos e esse ano Lima Barreto foi a marca, com relançamentos e novas edições, vários livros de crítica e análise de sua obra e com destaque à biografia editada pela cia das letras e escrita por Lilia Moritz Schwarcz “ Lima Barreto: Triste visionário”.

Mas toda fresta, toda vereda é só um pequeno caminho que indica que ainda há muito a construir. A Flip ainda é um espaço para poucos, infelizmente isso é reflexo de um país que tem muito a caminhar no acesso à cultura e principalmente no acesso à leitura; os livros são uma chave para se compreender o mundo, o perigo desses espaços são transformar o livro em um lugar distante do grande público, onde “só eruditos” possam chegar nele.

Esse talvez seja o desafio da Flip para os próximos anos, elevar a radicalidade do projeto literário de Lima Barreto na própria estrutura da festa. Sem dúvida a Flip deste ano foi especial e tem muito a construir para o futuro.

 

 

“Nós não somos nada nesta vida” – A denúncia do preconceito racial em Clara dos Anjos

Cassi partira, fugira… Agora é que percebia quem era o tal Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) (p. 136)

Clara dos Anjos é um desses livros que esconde a genialidade na simplicidade. Uma história curta, com poucos personagens, mas que extrapola as cerca de 120 páginas do romance. Nele encontramos o que há de melhor em Lima Barreto: as descrições da paisagem do subúrbio carioca, uma narrativa sobre o cotidiano da vida “das pessoas comuns”, o tom irônico e ácido sobre um Rio de Janeiro fragmentando e desigual e uma profunda crítica contra o racismo cínico tipicamente brasileiro.

Afonso Henriques de Lima Barreto nascido no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881, filho de mulatos livres e bem instruídos (algo incomum durante sua época) – seu pai era tipógrafo da imprensa nacional e a mãe professora primária – foi o homenageado da 15ª Flip (Feira Literária Internacional de Paraty). A escolha, mais do que merecida, corrige parcialmente uma injustiça histórica, afinal Lima Barreto considerado um dos mais importantes escritores brasileiros sempre teve o talento subestimado por seus contemporâneos e recebeu pouco reconhecimento em vida – candidatou-se, por exemplo, em 1919 a vaga na Academia Brasileira de Letras, mas seu pedido foi sequer considerado!

Lima Barreto entendia que sua origem social e condição de mulato impediam a sociedade brasileira de enxergá-lo como um intelectual, e se tornou um dos maiores denunciadores e combatentes do racismo na literatura. Ingressou na Escola Politécnica, mas não se formou, abandonou o curso de engenharia e passou a atuar como jornalista e cronista na mídia impressa, também atuou na secretária de guerra na seção burocrática após ser aprovado em um concurso público em 1903. Sua primeira obra como escritor e que o rendeu um relativo reconhecimento foi “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909) que retrata a história de um mulato que tentou se formar e se tornar “doutor”, pois achava que assim não seria discriminado, contudo sua obra máxima e mais importante é o grande clássico da literatura brasileira: Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) que narra o cotidiano de Policarpo Quaresma, subsecretário do Arsenal de Guerra, um patriota apaixonado pelo Brasil e pelos livros, que mora no Rio de Janeiro durante o governo de Floriano Peixoto.

O livro ‘Clara dos Anjos’ foi publicado postumamente em 1948 e foi a última obra escrita do autor antes de sua morte em novembro de 1922, é uma história com traços “naturalistas-realistas” bem marcantes, durante a leitura fica perceptível como o “caráter” dos personagens seria determinado pelo “ambiente/meio” que crescem e vivem. O tom ácido e critico do autor às injustiças e a pobreza da periferia carioca também percorre todo o livro, o subúrbio é chamado por Lima Barreto de “refúgio dos infelizes”, o lugar de união de todos os desafortunados, em que: “por esse intricado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro”. (p.81).

A protagonista Clara é uma mulata[1], pobre e ingênua que mora no subúrbio carioca com seus pais. Sua família vivia uma vida pacata e harmoniosa, seu pai era um humilde trabalhador dos correios, e a mãe cuidava dos afazeres domésticos e zelava pelo bem-estar da família. Tudo na rotina deste “pobre lar honesto” se transforma quando ela conhece Cassi Jones em uma roda de violão numa festa local. Este sujeito “um típico malandro carioca” é filho de pais bem abastados e que “não queria nada com a vida”, vivia na vadiagem e seduzindo jovens moças incautas. Várias de suas investidas anteriores já tinham ocasionado em tragédias familiares, contudo, ele não se emendava, pois, sua mãe “superprotetora” sempre o acobertava.

O livro narrado em terceira pessoa apresenta ao leitor um aspecto de “tragédia anunciada”, afinal desde o início da narrativa já conhecemos a índole de Cassi e sabemos quais são suas intenções com a inocente Clara, só nos resta mesmo esperar pelo pior. A moça que idealizava um romance capaz de vencer as barreiras de cor e classe, ao se descobrir grávida, faz planos de fugir e viver o amor “impossível”, entretanto é surpreendida com a fuga e o sumiço imediato do rapaz.

Arrependida e arrasada emocionalmente Clara finalmente desperta para a realidade e percebe que: “A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) Ele contava, já não se dirá com o apoio, mas com a indiferença de todos pela sorte de uma pobre rapariga como ela. (p. 136).

Ela pensou em se matar, mas por fim decide contar aos pais sua situação de “desgraçada de honra” e abandonada pelo namorado. Sua mãe sempre muito honesta e correta imediatamente opta por ir se acertar com a família do Senhor Azevedo (Pai de Cassi Jones). Ao solicitar o casamento, Clara é enxotada pela Dona Salustiana (mãe do rapaz), que considera um insulto a remota possibilidade de seu filho se casar com uma “mulatinha”, afinal:  “-Ora, vejam vocês, só! É possível? É possível admitir-se meu filho casado com gente dessa laia.. .Qual!… Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina – que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!.” (p. 142). Ao se deparar com tal reação e pensar no vexame que sofrera Clara  finalmente passa ter “noção exata de sua situação na sociedade” (p. 143). Aquela dolorosa cena final é descrita por Lima Barreto de forma primorosa e é definitivamente um dos encerramentos mais emocionantes da literatura brasileira

“Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um grande acento de desespero:

-Mamãe! Mamãe!

-Que é minha filha?

-Nós não somos nada nesta vida”

(pág. 144)

[1]“Clara dos anjos foi o primeiro romance a ter como protagonista uma mulher negra. Ele gritou contra o racismo, contra a corrupção, contra o apadrinhamento político e o poder político nas mãos das mesmas famílias sempre, que a gente vê até hoje. Se a sociedade da belle époque tivesse ouvido o Lima Barreto, não estaríamos vivendo o horror que vivemos no Brasil” — disse Luciana Hidalgo.

Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/se-tivessem-ouvido-lima-barreto-na-epoca-nao-estariamos-vivendo-esse-horror-no-brasil-diz-luciana-hidalgo-21642041#ixzz4oHeo1XVM

https://educacao.uol.com.br/biografias/afonso-henriques-de-lima-barreto.

http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/o-que-lima-barreto-pode-ensinar-ao-brasil-de-hoje/

O Velho e o Mar: Uma história sobre desafios, esperanças e a própria sensibilidade humana

 “Falam do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evitá-lo” (p.32).

Escrito por Ernest Hemingway[1] em 1952, “O Velho e o Mar” é apontado como uma de suas obras-primas, responsáveis por seu Prêmio Pulitzer em 1953 e o Nobel de Literatura em 1954[2], prêmios dedicados aos mais magníficos trabalhos literários. Essa obra de grande sensibilidade tem origem em sua vivência em Cuba, país que morou por mais de 20 anos (entre 1939 e 1960) [3] e o cenário que se desenrola essa história.

O livro é bem curto, pouco mais de cem páginas, mas consegue envolver o leitor de uma maneira que terminada a leitura a reflexão se prolonga e faz repensar os significados de suas entrelinhas. Ainda que indique uma história carregada de simbolismo, a narrativa se apresenta de forma simples, leve e fluída. Criamos grande cumplicidade com o protagonista, sentindo suas angústias, medos, esperanças, e o acompanhando nessa jornada tão solitária. Participamos então de uma incrível aventura em alto-mar, que consegue ser mais que uma história de pescador, pois em todos os momentos nos remetemos aos próprios desafios que enfrentamos ao longo da vida. Por isso mesmo, se trata de uma leitura capaz de despertar tantas emoções.

“O Velho e o Mar” conta a história de um pescador chamado Santiago. De origem simples, é um pescador experiente e solitário, que passa pela pior tragédia para qualquer pescador, não consegue pescar por um longo período de tempo, sendo então motivo de zombaria em sua comunidade. Até um jovem amigo e aprendiz, teve que abandoná-lo por ordem de seus pais que temiam que o azar do velho fosse contagioso. Assim, julgado e isolado, o velho Santiago mesmo após 84 dias sem conseguir pescar sai perseverante em busca de um milagre: “o que aconteceu é que acabou a minha sorte. Mas, quem sabe? Talvez hoje. Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado” (p.35).

Nesse dia, se depara com um peixe anormalmente grande que se apresenta como um desafio a ser vencido. Com 5 metros de comprimento, a batalha com esse peixe, maior que o próprio barco, é o que move essa história.

Afastando-se cada vez mais da costa, Santiago persegue o peixe, luta que se prolonga por vários dias, exaurindo suas forças e as do peixe. O personagem luta contra a fragilidade de seu corpo velho, cãibras, fome, cansaço, sono. Mas apesar de todas as adversidades, nos dá uma lição de nobreza, dignidade e justiça. “Gostaria de poder alimentar o peixe”, pensou. “ele é como se fosse meu irmão. Mas tenho de matá-lo e ganhar forças para fazê-lo” (p.62).

Durante a batalha, podemos ver a própria humanidade do personagem, que se conecta a natureza e tem máximo respeito por seu oponente. Santiago tem consciência da própria insignificância diante da natureza, seus valores o fazem pensar que para pescar esse maravilhoso espécime é necessário ser merecedor. “Nunca vi nada mais bonito, mais sereno ou mais nobre do que você, meu irmão. Venha daí e mate-me. Para mim tanto faz quem mate quem, por aqui” (p.91).

Apesar de muitas vezes se sentir enfraquecido diante desse desafio, Santiago tem ambições, quer mostrar seu valor e capacidade através de uma luta justa, da qual a paciência é um dos seus maiores trunfos. Enquanto espreita no barco, seus pensamentos voam para longe, refletindo sobre sua existência, seus feitos na juventude e os sonhos que ainda conserva. Assim, mesmo se sentindo pequeno diante da imensidão do mar, está disposto a firmar seu lugar no mundo.

A história de Hemingway é repleta de sutilezas, a sua essência não repousa no ato de “conquista” ou mesmo, em vitórias ou derrotas, e sim em quais os caminhos percorridos, quais sacrifícios são feitos em seu nome, principalmente como nos dedicamos, sentimos esperança, nos sentimos merecedores e dignos de alcançar êxito diante dos desafios. Por isso mesmo que este livro nos permite pensar na vida, especialmente nos obstáculos e dificuldades. A nossa postura diante desses episódios revela muito do que somos como seres humanos, é nesse sentido que a figura do velho Santiago nos inspira. Ainda que a velhice e o cansaço apresentem grande peso em sua condição, ele não hesita antes de entrar na maior batalha da sua vida. Sendo assim, o desfecho dessa obra nos é surpreendente, o autor nos convida a desvendar nossa própria força, capacidade de resistir e alcançar nossos sonhos, ao mesmo tempo nos previne que há sempre novos desafios à frente.

[1] Já resenhamos aqui “Adeus às Armas”: https://letracapitularblog.wordpress.com/2017/03/26/adeus-as-armas-a-inevitabilidade-da-guerra-e-a-fragilidade-do-amor/

[2] The Nobel Prize in Literature 1954 – http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1954/

[3] No rastro de Hemingway em Cuba: http://jornalggn.com.br/blog/jota-a-botelho/o-rastro-de-hemingway-em-cuba

Mandingas da mulata velha da cidade nova

Este livro de Nei Lopes, sambista, escritor, lexicógrafo e estudioso das culturas da diáspora, narra a história da Tia Amina, uma baiana que fugida desembarca no centro da cidade do Rio de Janeiro e começa a sua vida de mãe solteira, que se confunde com a própria história da cidade entre os anos de 1870 a 1930.

O livro começa na tentativa de resolver os mitos e preconceitos envolvendo a morte da famosa Tia Amina escritos em um obituário a seu respeito, personagem que carrega clara inspiração na figura histórica de Tia Ciata – personagem fundamental para a cultura do samba na cidade do Rio de Janeiro – e é a busca por descobrir a história dessa pessoa que anima os acontecimentos do romance.

Nei Lopes constrói como ninguém esse arquétipo que é tão fundamental para a cultura brasileira, e para isso se arma de todo o seu conhecimento sobre a história, cultura e religião do Brasil e do Rio de Janeiro.

O autor dá vida ao jornalista Henrique Costa, Costinha ou “diga mais”, repórter encarregado de descobrir quem foi Tia Amina e qual foi a sua história nas ruas do centro da cidade do Rio, com esse personagem Nei Lopes honra a memória de duas formas literárias fundamentais para a Cidade do Rio de Janeiro e para a literatura moderna.

A crônica da vida cotidiana, onde o caminhar pela cidade e uma fonte inesgotável de paisagens e causos, e o texto jornalístico que tenta investigar com seriedade essa vida para reescrever a sua história, Neil Lopes extrai o melhor desses dois mundos criando um romance grandioso não só pelas variadas referências, mas por sua beleza.

Sob esse duplo aspecto, Nei Lopes percorre as ruas do Rio de Janeiro do centro aos subúrbios, de bonde e de trem; o autor narra a modernização da cidade e as transformações urbanas do Rio de Janeiro que infelizmente apagaram parte da nossa história e da cultura negra na cidade.

Com este livro o leitor vai poder passear por vários momentos importantes da nossa história, em uma junção de personagens da história oficial e a história que realmente importa, das figuras do cotidiano das ruas e dos morros do Rio.

Esse romance constrói uma história brilhante e fundamentalmente crítica porque narra vidas que são violentamente esquecidas pelo cânone literário e modifica seu eixo para a cultura negra do Rio de Janeiro. Com este romance e com “Rio Negro 50” Nei Lopes empurra o olhar para os lugares historicamente esquecidos e invisíveis ao cânone literário, e de alguma maneira reescreve e reafirma um olhar sobre a cidade do Rio de Janeiro.

Um artesão da literatura: a vida e a “obra” de Max Perkins

Sempre que pensamos nos livros, a figura romântica do escritor boêmio sentado em um café ou em uma biblioteca escrevendo e tomando notas para o seu trabalho, toma a nossa imaginação. A imagem desse intelectual ronda nossas cabeças, muitas vezes construída pelo próprio mercado editorial. Entretanto raramente a figura do editor de livros nos vem à cabeça, uma figura esquecida no próprio processo da leitura.

Afinal, você se pergunta quem editou/edita seu escritor favorito ao ler um livro?

O processo editorial pode ter contribuições significativas à narrativa apresentada por um original – como por exemplo uma mudança de título ou dar nova forma para uma história. Não só isso, o editor historicamente é uma figura que descobre escritores importantes e eleva novas vozes para o centro da história da literatura, incentivando e quebrando limites estéticos que o próprio mercado de livros impõe.

A história do editor americano Maxwell Evarts Perkins, narrada pelo biografo A. Scott Berg no livro Max Perkins um editor de gênios – publicado originalmente em 1978 nos EUA[1]–  que em 2014 chegou às livrarias brasileiras pelo selo Intrínseca, é um exemplo de como é importante o trabalho do editor não só na construção estética de um livro e na dinâmica comercial das vendas e dos contratos literários – formas de trabalho que são mais evidentes – mas também muitas vezes trabalhando como amigo, irmão, confidente, publicitário, crediário etc.

Max Perkins ajudou a construir a literatura americana como nós conhecemos hoje, descobriu e incentivou vários importantes nomes da ficção estadunidense, modificou a forma do mercado editorial americano. Dentre as suas principais descobertas estão F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolf; pelos dois primeiros já podemos perceber o tamanho da contribuição de Max Perkins para o mundo da literatura. A relação de Perkins com Wolf foi tão emblemática e poderosa que este trecho do livro inspirou um recente filme sobre a relação dos dois, no Brasil chamado de “Mestre dos Gênios” (2016).

Max Perkins estabeleceu uma forma de trabalho invejada por seus contemporâneos como o próprio livro demostra e rompeu barreiras da edição construindo uma imagem e uma forma de trabalho que inspira, mesmo inconscientemente, os atuais editores. Sempre na coxia do mercado editorial, Max raramente aparecia publicamente ou omitia opiniões estéticas, ao mesmo tempo que forçava os limites do mercado editorial para outros lugares enfrentando resistência muitas vezes na própria editora a Scriber´s em Nova York. Max nunca se deixou levar pelo glamour da vida literária e nunca recebeu os holofotes de seus escritores, isso se transformou em uma forma de trabalho fundamental para Perkins.

O livro de A. Scott Berg é fantástico porque remonta a trajetória de uma figura central para a literatura americana do século XX não só pelo seu trabalho como editor de grandes figuras, mas a vida de Max Perkins acompanha as principais transformações que os EUA passaram ao longo dos anos, da crise de 1929 às barbáries da Guerra, e Max como um atento observador as acompanhou de perto.

Todos esses acontecimentos e todos esses fatos são animados por uma pesquisa em arquivos e por um grande acervo de cartas que nos deixa a cada página mais próximos dessa figura excêntrica e intrigante que foi Maxwell Evarts Perkins participando ativamente dos diálogos, a pesquisa de Berg é fundamental para todo aqueles que se interessam pelas histórias das pessoas que dão vida à literatura e que por muitas vezes não damos a devida importância.

A pesquisa de Berg pode nos inquietar a pesquisar quem são os Max Perkins da literatura brasileira? Quem são os artesões da literatura que editaram os nossos grandes mestres?

[1] Que foi transformado em filme pelo diretor Michael Grandage e intitulado Mestre dos Gênios (2016) o qual escrevemos para o blog uma resenha https://letracapitularblog.wordpress.com/2016/11/05/mestre-dos-genios-2016/ e que motivou a leitura do livro.

As aventuras de Huckleberry Finn– Uma visita aos Estados Unidos “pré-Guerra civil” as margens do Rio Mississipi.

Dissemos que não tinha casa melhor que uma jangada. Outros lugares parecem apertados e sufocantes, mas não uma jangada. A gente se sente realmente livre, à vontade e confortável numa jangada.

Samuel Langhorne Clemen nasceu em uma pequena vila no Missouri, localizada nas margens do rio Mississipi em 1835, cresceu no meio de navios, marinheiros, missionários, e aventureiros de toda a espécie. Quando adulto virou timoneiro de barco a vapor e com isso conseguiu colecionar muitas histórias do “Grande Mississipi”. Tornou-se famoso, contudo, através do pseudônimo Mark Twain[1] que utilizou em sua carreira como jornalista e escritor. Possui uma vasta e extensa bibliografia e se tornou um dos mais renomados escritores norte-americanos, suas histórias evocam um ‘Estados Unidos interiorano’, de pessoas simples e de vidas comuns, também se utilizava de um vocabulário regional, enfatizando as “várias falas” dos distintos grupos que dividam o território sulista.

As memórias de sua infância e juventude no Missouri estão de certa forma presentes nos dois grandes livros que o alçaram ao posto de pai da “literatura autenticamente americana[2]”: As aventuras de Tom Sawyer (1876) e As aventuras de Huckleberry Finn (1884). Ambas as histórias tem como protagonistas crianças que são consideradas “desajustadas”, ou seja, tem enorme dificuldade em obedecer aos adultos, não gostam de frequentar a escola e a igreja, e estão sempre envolvidos nas confusões locais. Contudo, demonstravam uma enorme criatividade e um saber “não formal” que os auxilia em suas empreitadas cotidianas, se utilizando de recursos “politicamente incorretos” como a mentira, para enganar as outras crianças e se dar bem. Em um dos trechos mais famosos do primeiro livro, Tom Sawyer utiliza sua “lábia” para se livrar da sua tarefa doméstica (pintar uma cerca da casa de sua tia Polly) e trocar de lugar com alguns garotos que o importunavam, além de receber em troca por isso “doze bolas de gude, um pedaço de vidro azul, uma coleira de cachorro, seis bombinhas, uma chave que não destrancava nada, um soldado de chumbo faltando a cabeça… e a cerca tinha três camadas de cal”.

‘As aventuras de Huckleberry Finn’ é de certa forma uma continuação da história anterior, ainda que possa ser lido separadamente. A história começa exatamente após o final dos acontecimentos de ‘As aventuras de Tom Sawyer’, contudo os protagonistas são trocados, Huck Finn que até então teve um papel secundário na narrativa, sendo apenas um garoto companheiro de aventuras passa a ir morar com uma boa família que o adota (o pai estava desaparecido). Seu pai que é um alcoólatra violento e o havia abandonado retorna, recupera a sua custódia e o leva para morar consigo em uma ilha. Huck Finn foge, mas ao mesmo tempo em que não queria a companhia paterna também não pretendia voltar para a vida “domesticada” e “civilizada”, queria a liberdade de andar pelo mato sem preocupações, de pescar e caçar à tarde, de navegar usando uma balsa e procurar tesouros de pirata com seus companheiros.

É nesse momento que começa a aventura que seria classificada como o “grande romance norte-americano[3]”: Huck Finn monta uma jangada e decide descer o rio Missispi fugindo de St. Louis, sem destino previamente definido. Ao embarcar encontra ‘Jim’ um escravo doméstico que estava fugindo, pois sua senhora planejava o vender para as plantações de algodão em Nova Orleans. Imerso na cultura sulista Huck tem muita resistência em ajuda-lo, pois não queria ser visto como um “abolicionista safado”, mas aos poucos a convivência vai tornando os dois verdadeiros amigos e o garoto passa a lutar pela liberdade de Jim o ajudando na empreitada de escapar para um estado livre.

Durante a jornada os dois colecionam inúmeras situações inesperadas, e o instinto de sobrevivência de Huck os salvam praticamente todas às vezes. Na trajetória pelo sul dos Estados Unidos passam pelo Missouri, Kentucky, Arkansas e Tennessee. Em todas as cidades que aportavam encontravam situações típicas que retratavam a cultura local e que acabam se envolvendo indiretamente como: superstições sobre espíritos do além, amores proibidos, grupos de bandidos salteadores aterrorizando vilas, disputas de famílias rivais resolvidas com duelos de armas, linchamentos públicos de pequenos criminosos (era muito comum punir os ladrões jogando piche e penas em cima deles), e vigaristas aplicando golpes se aproveitando da ingenuidade da população.

 Vários temas são abordados nessa jornada: o dilema moral de ser contra uma norma instituída que era a escravidão, por exemplo, está presente a todo instante na mente de Huck, ele fica com muito receio de ajudar um escravo a fugir (tem medo até de ser condenado por Deus), somente quando percebe a humanidade em Jim (conhece sua história pessoal, seus medos, sonhos e ambições) é que este conflito interno é vencido e ele opta por lutar pela liberdade do amigo o auxiliando na fuga. A lealdade também é abordada, pois, aparecem inúmeras oportunidades para Huck denunciar a fuga de Jim, mas ele não consegue trair a confiança de seu amigo. A crueldade da justiça dos adultos também assusta nosso protagonista, apesar de condenar a ação dos vigaristas que enganavam a todos na cidade, ele fica muito assustado ao ver uma cena em que uma multidão corre para praticar um linchamento: “Bem, fiquei doente de ver aquilo; e tive muita pena dos dois vigaristas desgraçados, e parecia que nunca mais neste mundo eu ia conseguir sentir raiva deles. Os seres humanos podem ser terrivelmente cruéis uns com os outros”. Uma crítica ao saber formal e institucional, pois, no inicio da história Huck demonstra claramente uma enorme dificuldade de se adaptar ao ambiente educacional, é uma criança que não é adepta dos livros (ao contrário de Tom Sawyer que gosta muito de romances de piratas), e ele mesmo se considera alguém com pouca inteligência, contudo ao longo da trajetória, sua criatividade e seu saber “não formal” são responsáveis por lhe salvar a vida inúmeras vezes, esse tipo de inteligência que não é valorizada na escola acaba sendo de enorme utilidade ao longo da aventura.

Mark Twain em “As aventuras de Huckleberry Finn” realiza um profundo relato da vida cotidiana dos estados do sul, nessa jornada em busca de liberdade o protagonista passa por diversas experiências que o transformam profundamente. O solitário convívio com um escravo fugitivo transforma sua percepção de realidade, e a amizade sincera e leal que ambos estabelecem serve de motivação para ele questionar as raízes institucionais e culturais da escravidão.

Referências consultadas:

Huck Finn map – https://prezi.com/xonimsftmiil/huck-finn-map/

Autor de Hoje: Mark Twain – http://www.lpm-blog.com.br/?p=8750

As aventuras de Huckleberry Finn – http://www.lpm-blog.com.br/?tag=as-aventuras-de-huckleberry-finn

[1] “Há uma história por trás do pseudônimo usado por Samuel Langhorne Clemens. Mark Twain é uma expressão que aprendera a usar nas suas viagens fluviais pelo Mississipi, uma medida de profundidade do rio”. Disponível em: http://www.lpm-blog.com.br/?p=8750

[2] http://www.lpm-blog.com.br/?tag=as-aventuras-de-huckleberry-finn

[3] “Toda a literatura americana moderna se origina de Huckleberry Finn. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” Ernest Hemingway

A distopia totalitária de ‘Fahrenheint 451’: Uma crítica à repressão política e a superficialidade

Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimados a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros”. Sigmund Freud

 O século XX ficou marcado pela ascensão dos regimes totalitários. Práticas como perseguição e repressão a opositores políticos, queima pública de livros, cerceamento das liberdades civis e censura à imprensa se tornaram comum em diversos países. O fracasso liberal em manter a estabilidade política e econômica – simbolizado pela crise de 1929 – permitiu o ressurgimento de práticas que os iluministas consideravam renegadas ao passado das monarquias absolutistas. A profunda crise enfrentada pelo mundo no pós-1ª guerra concebeu a oportunidade para a ascensão de figuras como Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, que canalizavam a decepção e o medo generalizado em um sentimento de ódio contra minorias, no culto a personalidade de um “grande líder” e no combate a opositores.

Este ambiente de difusão do totalitarismo foi captado pela literatura, e um novo gênero de ficção cientifica se consolidou: dos futuros distópicos. A utopia[1] é um termo utilizado para designar o “não lugar”, ou seja, um lugar fictício que é “bom demais para ser verdade”, quando substituímos o prefixo u por dis, criamos um efeito negativo. Dessa vez é um lugar fictício, mas que apresenta características muito piores que as da nossa realidade atual[2].

Alguns futuros distópicos imaginados pelos autores de ficção científica ficaram marcados pelo vanguardismo de suas análises, antevendo situações que somente iriam se concretizar décadas depois. Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo (1932) previu a difusão de drogas alucinógenas que “vendem a felicidade em um comprimido”, George Orwell em 1984 (1949) criou um futuro em que câmeras de vigilância estão presentes em todos os lugares e o “Grande Irmão” vigia a tudo e a todos, Anthony Burgess no livro Laranja Mecânica (1962) imaginou um mundo de extrema violência onde gangues juvenis espalham o terror e o governo precisa recorrer a práticas de condicionamento comportamental para controlar os criminosos.

Ray Bradbury (1920 – 2012), norte-americano nascido em Illinois, se incluiu no rol de grandes autores da ficção científica com o livro “Fahrenheit 451”. O título é uma alusão à temperatura em que o papel incendeia. Seu futuro distópico diferentemente de outras ficções não retrata um ambiente com muitas inovações cientificas hi-tech mirabolantes, ou a presença algum aparato tecnológico de vigilância. O cenário retratado é os Estados Unidos em um futuro próximo (existem poucas referencias temporais na história) a sociedade existente é controlada por uma instituição conhecida como os “bombeiros”, só que ao contrário dos dias de hoje, eles não existem para apagar incêndios, já que as casas são à prova de combustão. Sua função é invadir casas e queimar livros.

A leitura, ou o simples ato de possuir livros é considerado um crime punido na maioria das vezes com a prisão ou morte. A história é contada a partir da perspectiva de Guy Montag, um membro do corpo de bombeiros que cumpre sua rotina no trabalho, contudo um fato marcante em um de seus incêndios cotidianos o faz refletir profundamente. Uma das “criminosas” prefere morrer abraçada aos seus livros em vez de fugir dos incêndios, isto o faz pensar sobre o que há de tão importante e interessante nesses livros para fazer as pessoas morrerem por eles. Com isso ele furta um livro da pilha de livros recém-queimados e leva para casa, e passa a se tornar, portanto, um criminoso. Também conhece uma garota: Clarisse McClellan, ela é diferente de todos que já conhece, pois é uma pessoa questionadora, que não aceita as verdades impostas pelo regime, que gosta de leituras, de passeios ao ar livre (a sociedade retratada no livro se utiliza exclusivamente de automóveis para se locomover em altíssimas velocidades pelas autopistas, não existem calçadas ou lugares para trânsito de pedestres), e que “desperdiça” horas do dia observando as paisagens nos parques.

Aos poucos Montag começa a perceber o aparato autoritário a sua volta e como vive em uma sociedade disfuncional, seus diálogos com Clarisse o revelam como a vida foi se tornando vazia e superficial :

– As pessoas não conversam sobre nada.

– Ah elas devem falar de alguma coisa!

– Não, de nada. O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: “Que legal!”. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém.

Posteriormente ao chegar em casa e conversar com sua esposa: Mildred Montag (uma pessoa completamente imersa na tecnologia alienante das culturas de massa) chega a seguinte conclusão: “Que engraçado quando uma pessoa não se lembra de onde nem quando conheceu a esposa ou o marido (…) Como uma pessoa fica tão vazia? Perguntou a sim mesmo. Quem esvazia a gente?”.

Ao investigar as bases ideológicas que sustentam esse regime autoritário, Montag descobre que na verdade o papel dos bombeiros é meramente simbólico, eles apenas caçam alguns dissidentes, a maioria das pessoas optou por abandonar os livros de livre e espontânea vontade. Quem foi o responsável por essa mudança comportamental foram às tecnologias que permitiram uma grande difusão da “cultura de massa alienante”. O sonho das pessoas neste “novo mundo” é comprar quatro televisões gigantes de alta definição e preencher os quatro lados da parede para assistir uma espécie de “reality show” que retrata a vida de outras famílias comuns.

Quando seu superior Capitão Beatty, chefe dos bombeiros, desconfia de suas atividades subversivas e o convoca para uma audiência a verdade é revelada:

-Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não!

Com isso, aos poucos:

 – Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois traduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e por fim, encerrando-se num dicionário de dez a doze linhas. (…)

 A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta (..) Por que aprender alguma coisa além de aperta botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

Dessa forma, Bradbury nos apresenta uma sociedade autoritária na qual o aparelho repressivo não necessita de atuar diretamente como no Ministério da Verdade presente totalitarismo orweliano, as próprias pessoas imersas em uma cultura de massa superficializada, e preocupadas somente em “como as coisas funcionam” e não com os “porquês” optam por se afastar da intelectualidade. O livro transmite uma mensagem bem pessimista, pois Montag percebe aos poucos que não adianta combater um regime opressivo se a própria sociedade se sente confortável com a ignorância. Sua saída é fugir da cidade e se juntar a um grupo de exilados nômades que decora os livros – para enganar as autoridades – e recitam uns aos outros durante a noite em volta de uma fogueira para manter a “cultura literária” viva.

A característica mais marcante deste romance é que ao olhar para a sociedade norte-americana da época (1953) Bradbury antecipa uma característica essencial contemporânea: a existência de uma geração saturada de informações supérfluas, cercadas de ruídos e que busca no consumismo desenfreado a solução para todas as suas frustações pessoais gerando inúmeros transtornos psicológicos.[3] Percebemos, portanto, como não é mais necessário queimar livros ou proibi-los como os nazistas faziam para se combater uma ideia, basta deixá-los cair no esquecimento.

[1] “Não foram poucas as vezes em que algum grupo de pessoas almejou um lugar fictício que é literalmente muito bom para ser verdade. O termo, porém, só entrou para o imaginário popular depois de cunhado pelo estadista e escritor britânico Thomas Morus em 1516.” – Revista Galileu.

[2] “O termo “distopia” foi ideia do pensador John Stuart Mill, que em 1868 sentiu necessidade de uma palavra que explicasse bem o suficiente a inversão dos valores utópicos de Morus na era industrial” – Revista Galileu.

[3] O consumismo se torna preocupante quando as pessoas compram algo para conseguirem adquirir uma característica ou outra que não fazem parte da sua identidade. “Ela adquire aquele objeto acreditando que vai também adquirir aquelas características, quando se trata de uma falsa vaidade”. “Quando o consumismo acontece em exagero acaba se tornando um problema psicológico, pois trata-se de alguém que está abandonando a própria identidade para viver uma ilusão” – Disponível em: <http://www.segs.com.br/saude/10748-consumismo-exagerado-pode-desenvolver-problemas-psicologicos.html&gt;

Antonio Candido (1918-2017)

Na tarde desta sexta-feira chegou-me a notícia que Antonio Candido de Mello e Souza faleceu, aos 98 anos em São Paulo. A imediata tristeza pela perda de um dos maiores interpretes do Brasil, me fez lembrador do primeiro contato com os textos do Professor, foi ainda no ensino médio, quando as aulas eram ministradas a partir do seu importante livro “Formação da literatura brasileira: momentos decisivos”, um clássico publicado em 1959 e lido até hoje. O objetivo deste texto é prestar uma pequena homenagem recolhendo relatos e textos importantes sobre sua vida e obra.

Candido foi um professor que formou diversas gerações de pesquisadores, políticos e intelectuais brasileiros, um homem de convicção política clara – um socialista, nunca perdeu a vontade do diálogo e fundamentalmente um crítico e um interprete da realidade brasileira. Por isso algumas homenagens:

“Deixo registrado aqui mais do que minha memória, meu sentimento: como pessoa Antonio Candido também se destacava. Homem de compromissos políticos, nunca se calou. Tampouco perdeu suas qualidades humanas deixando-se contaminar pelo azedume. Discordamos em apreciações políticas, sem perder o respeito e, sobretudo, a convivência harmoniosa. Nessa, Antonio Candido também foi mestre: sabia que a cortesia permite guardar limites, protegendo quem a cultiva tanto de proximidades excessivas e desnecessárias quanto de arroubos que muitas vezes inviabilizam o convívio” Fernando Henrique Cardoso

“intelectual de imensa cultura, homem tão sério quanto engraçadíssimo, Antonio Candido foi o melhor amigo dos meus pais e presença marcante na minha infância” Chico Buarque

“Para Antonio Candido a arte e a literatura respondem à necessidades profundas do ser humano. E foi sobre isso que ele refletiu em “O direito à literatura”, outro ensaio igualmente importante, em que defende a necessidade de estender a todos, sem distinção de classe, o acesso a este bem imaterial” Nota familiar

“o Brasil perde o intelectual, o crítico, o escritor (excelente escritor!), o professor, o mestre. Em um momento tão duro como o que passamos, essa despedida é ainda mais triste” Lygia Fagundes Telles

“Espantosa sua lucidez” Raduan Nassar

“Morreu um grande mestre. Morreu o mestre do Brasil” Nélida Piñon

“Tenho enorme orgulho de ter convivido com o companheiro Antonio Candido. O Brasil perdeu hoje mais do que um dos maiores intelectuais da nossa história. Perdemos um ser-humano excepcional, que dedicou sua vida à cultura, à democracia e à justiça social. E o fez com excelência em todos os campos. Foi um corajoso adversário de qualquer tipo de autoritarismo e já nos anos 40 fundou a União Democrática Socialista. Lutou contra a ditadura militar e durante toda sua vida se manteve fiel aos ideais da esquerda democrática. Não foi apenas fundador do PT, foi militante cotidiano do partido, um petista sempre presente no bom combate em defesa do desenvolvimento nacional. Participou da elaboração de programas de governo, viajou o país e teve uma importantíssima atuação a favor da transformação social e do direito dos trabalhadores. Neste momento de pesar, transmito meu abraço fraterno aos familiares e amigos” Luiz Inácio Lula da Silva

“Viver 98 anos não deve ser fácil, mas para ele parece ter sido uma agradável aventura. Mais raro ainda é viver quase cem anos sem nunca mudar de lado, fiel às suas convicções, aos seus princípios, aos amigos e à sua própria obra literária, sem se queixar da vida nem nunca levantar o tom de voz para convencer ninguém” Ricardo Kotscho

“o intelectual jamais ensarilhou as armas da crítica, participando sempre dos combates políticos de seu tempo. Isso significou um apoio incondicional a todo/as que combateram as ditaduras do Estado Novo (1937-1945) e do regime militar (1964-1985) bem como uma irrestrita solidariedade aos movimentos sociais e partidos políticos que, nos períodos da democracia política (1945-1964 e no pós-1985), se empenham por reformas sociais e econômicas em profundidade na sociedade brasileira” Nota do site Marxismo 21

“o lugar da Formação na estante fica ao lado das obras clássicas de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Como estes mestres haviam feito para os padrões da sociabilidade e da vida econômica, AC historia o vir-a-ser do sistema literário nacional, relativamente estável, auto referido, com dinamismos e problemas próprios, que cabe identificar e estudar. Neste sentido tangível, trata-se de um livro fundador” Roberto Schwarz.

“Atribui-se a Goethe a consideração de que as novas gerações devem herdar das antigas raízes e asas. É o que se pode dizer do legado de Antonio Candido em todos os sentidos e áreas do conhecimento, da militância, da vida em que esteve presente. Também, é claro, de sua reflexão sobre o Brasil, visto nela, sobretudo, através das lentes da sua literatura e da crítica literária” Flávio Aguiar

Foto: Kiko Ferrite

Doze anos de escravidão: O nascimento de uma nação

“As vozes dos representantes patrióticos, que proferiam discursos sobre liberdade e igualdade, e o entrechocar das correntes que prendiam os escravos soavam quase em uníssono. Havia um mocambo de escravos bem à sombra do capitólio (…)” Solomon Northup, p. 29

Imortalizada nas telas dos cinemas em 2013 pelo diretor Steve McQueen, a história de Solomon Northup, teve amplo destaque na premiação do Oscar ganhando o prêmio de melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o) e melhor roteiro adaptado. A história de um negro livre nascido na cidade de Nova York sequestrado, vendido como um escravo no sul dos Estados Unidos e que permaneceu doze anos em plantações de algodão no estado da Lousiana é um relato, escrito pelo próprio Northup[1], de denúncia das atrocidades do sistema escravocrata e ocupou um papel importante na luta abolicionista norte-americana. Seu livro juntamente com o romance “A cabana do pai Thomás” de Harriet Beecher Stowe serviu para difundir os ideiais abolicionistas nos estados do Norte.  Steve McQueen, diretor do filme afirma: “Eu não podia acreditar que nunca havia ouvido falar deste livro. Tão importante quanto o diário de Anne Frank, só que publicado cem anos antes”.

Existem poucos registros biográficos sobre Solomon Northup, as circunstâncias de sua morte são incertas e não existem registros oficiais sobre suas atividades após 1857.  Sabe-se somente que após passar os doze anos no estado da Lousiana como escravo passou a lutar pela causa abolicionista proferindo palestras e contando sua experiência enquanto escravo.

Northup era filho de um ex-escravo nascido em Rhode Island, que durante sua vida foi capaz de acumular uma quantidade de dinheiro e comprar sua liberdade, nasceu e cresceu em Nova York (julho de 1808), homem culto e alfabetizado (tocava violino, por exemplo) sempre foi um homem livre e trabalhava em várias atividades – agricultura, marcenaria, transporte com navegação em balsas, etc -, isto o permitiu acumular posses para adquirir uma propriedade e construir uma casa no vilarejo de Fort Edward, feito não muito comum para negros na época, se casou com Anne Hampton em 1929 e teve três filhos.

Teve uma educação acima da média e era presbiteriano, sua erudição o permitiu constituir um relato bem consistente da rotina da vida no sul dos Estados Unidos, afinal, a alfabetização era algo proibido aos negros nesses estados desde a grande revolta de Nat Turner em 1831 na Vírgina[2], sendo assim, Doze Anos de Escravidão é um dos poucos relatos sobre a escravidão a partir da visão dos próprios escravizados (Durante o século XIX, principalmente no Brasil, se tornou muito comum os viajantes europeus de tendência politica mais liberal escreverem relatos sobre os horrores da escravidão, contudo, um relato escrito por um ex-escravo a próprio punho é um documento bem mais raro).

A história começa em 1841 quando enganado por mercadores de escravos Northup aceita uma proposta para tocar violino em restaurantes e festas de luxo, como estava em uma temporada de descanso, não pode rejeitar a oportunidade de conseguir um dinheiro extra. Entretanto, no meio da viagem é drogado e transportado para um mocambo de escravos em Washington e posteriormente é enviado de navio para o estado da Lousiana. Sua condição jurídica de homem livre é ignorada por todos e ganha uma nova identidade “Platt”.

No início sua resistência é maior e insiste na tese de que é um homem letrado e livre, nascido no Norte, contudo, a violência dos senhores “quebra” sua resistência e ele vai se tornando no decorrer da história uma pessoa de personalidade resiliente e resignada. Ou seja, vai se adaptando rapidamente ao sistema escravista, falando pouco, aceitando os castigos, ignorando as injustiças a sua volta e apenas “sobrevivendo”. Em seus relatos menciona que muitas vezes pensou em tirar a própria vida, mas a vontade de rever os familiares o impedia desse ato final.

Com o tempo também vai se conformando de que uma fuga seria impossível e que o futuro o reservava uma vida de servidão, viveu em distintas fazendas e conheceu distintos senhores, contudo quem o marcou profundamente foi o Senhor Epps. Os castigos, açoites, abusos, a labuta diária e a pior face da escravidão estavam representadas nesta figura. Considerado o pior senhor de todas as fazendas em que trabalhou: suas variações de humor repercutiam diretamente na intensidade dos castigos sobre os escravos. A sua postura externa de submissão, contudo ocultava uma ânsia por liberdade:

Não houve um só dia, ao longo dos dez anos que pertenci a Epps, em que eu não consultasse a mim mesmo sobre a perspectva de empreender uma fuga. (…). Nenhum homem que jamais tenha sido colocado em tal situação pode imaginar os mil obstáculos com que um escravo se depara, quando tenta tomar um caminho para sua fuga. As mãos de cada homem branco erguem-se contra ele

Os numerosos relatos de fugas fracassados difunidades entre os cativos o impede de tomar este rumo. Pântanos com crocodilos, cães de caça raivosos que dilaceram pessoas em segundos, além da presença de inúmeros caçadores de recompensa especialistas em recapturar escravos fugidos compõem um ambiente de obstaculos intransponíveis. Sua volta para o Norte é na verdade fruto de uma singela coincidência, (que ele considera uma intervenção do divino), Northup escreve uma carta pedindo socorro e entrega para um abolicionista canadense que estava prestando serviços para a fazenda do Sr. Epps. Ao passar por Nova York a carta chega às mãos de um advogado conhecido que o resgata, colocando fim a sua estadia na Lousiana em 1853.

Após estes doze anos vivendo como escravo na Lousiana, Northup chega a seguinte conclusão: “Não é por culpa do escravagista que ele seja cruel, quanto isto é devido ao sistema sob o qual ele vive”. Ou seja, independente da bondade ou maldade dos senhores (que podem tornar a vida do escravo menos ou mais desagradável), o sistema escravista é injustificavel sob qualquer ponto de vista humanista. As ideologias que sustentavam a escravidão – a de superioridade racial e a de que o escravo era uma mera mercadoria (portanto, posse inquestionável de seu senhor) estavam profundamente enraizadas na cultura sulista norte-americana e eram tão importantes na manutenção desse sistema injusto quanto à violência das chibatadas.

A base econômica (o algodão, a cana-de açucar, o milho […]) que permitiu o nascimento de uma nação foi edificado com o sacríficio de sangue de milhares de negros que excluídos dos direitos presentes na “Declaração da Independência[3]” lutaram e lutam até hoje por liberdade e igualdade.

*O nascimento de uma nação é o nome do filme de 1915 de D. W. Griffith que fez um enorme sucesso nos Estados Unidos. Filme de alto teor racista que retrava os negros sob uma perspectiva “imbecializada” se tornou um verdadeiro difusor dos ideais da Ku Klux Klan.

[1] Existem controvérsias sobre a autoria da obra, muitos apontam uma coautoria do redator David Wilson

[2] Nat Turner era um líder religioso e foi a principal liderança de uma das rebeliões de escravos mais famosas dos Estados Unidos – Sua insurreição durou dois meses, contudo posteriormente foi preso e enforcado. Após estes levantes as leis sobre escravidão se tornaram mais duras nos Estados Unidos, foi proibido o acesso deles a leitura, as armas e a proibição de uniões matrimoniais. – Disponível em: http://www.biography.com/people/nat-turner-9512211

[3]Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade” – Declaração de Independência dos Estados Unidos – 4 de julho 1776.

Viagem ao centro da Terra: Uma aventura de exploração geográfica

-Sei. Mas não é certo que este ar acabará por adquirir a densidade da água?

-Sem dúvida. Sob uma pressão de setecentas e dez atmosferas.

-E mais abaixo?

-Ainda aumentará mais a densidade.

-Então como desceremos?

-Colocando pedras nos bolsos.

Colocando pedras nos bolsos?!  O senhor tem resposta para tudo!

O grande propagandista das ciências, e pioneiro da literatura de “viagens extraordinárias” Júlio Verne é considerado por muitos o “pai da ficção cientifica”. Em seus livros somos transportados para os ambientes mais inóspitos e os oceanos mais afastados no submarino Nautillus, ou viajamos para a órbita lunar em uma “nave” atirada de um canhão, percorremos o continente africano no sentindo oeste-leste em cinco semanas através de um balão e até mesmo viajamos para o interior da Terra. Também foi responsável por criar personagens marcantes que ficaram imortalizados na literatura como o capitão Nemo comandante do submarino Nautillus, que decepcionado com o mundo se isola da sociedade percorrendo lugares inóspitos, ou o excêntrico britânico Philleas Fogg que realiza uma aposta afirmando que seria capaz de realizar a volta ao mundo em 80 dias.

Nascido em Nantes na França em 1828, abandonou os estudos em direito para seguir carreira literária, foi um autor que combinava muito bem imaginação com o saber científico. Apesar de ter vivido durante o século XIX, muitos de seus livros anteciparam invenções e situações do século XX. Em seu livro Da Terra a Lua (1865), por exemplo, anteviu inúmeros detalhes da viagem realizada pelo projeto Apolo que permitiu a Neil Armstrong tocar a superfície lunar, “como a duração da jornada (97 horas na ficção e 103, na realidade), o número de tripulantes (três), os locais de lançamento (a Flórida) e de pouso (o Mar da Tranqüilidade, na Lua), Até mesmo o regresso à Terra, com o pouso no Pacífico e o resgate por um navio (…).[1]

Quando ‘Viagem ao centro da Terra’ foi publicado em 1864 Verne já era um autor conhecido e popular, principalmente entre o público juvenil. A obra segue um padrão típico das viagens exploratórias: uma preocupação em fundamentar suas histórias com explicações científicas, e um grupo de personagens conhecendo e explorando lugares até então desconhecidos da maior parte da humanidade.

A aventura tem início quando o professor e cientista alemão Otto Lidenbrock juntamente com seu sobrinho Axel descobrem na biblioteca um antigo livro de um alquimista islandês chamado Arne Saknussemm datado do século XVI. Estes escritos estão impressos em um antigo código rúnico e exigem um esforço significativo para ser traduzido.

A mensagem relatava que era possível chegar ao centro da terra a partir da entrada de um antigo vulcão inativo localizado na Islândia de nome “Sneffels”, ainda segundo as runas o antigo alquimista teria realizado previamente o percurso com sucesso. A história é escrita a partir da perspectiva do sobrinho Axel, como se fosse um diário de campo relatando os acontecimentos da viagem. No caminho para a viagem de exploração contratam um guia local para acompanhá-los chamado Hans (seus conhecimentos sobre “sobrevivência” serão de vital importância no caminho). Eles adentram nas galerias subterrâneas do vulcão adormecido no dia 1º Julho, e depois de todas as desventuras emergem para a superfície da Terra no dia 27 de Agosto, ou seja, foram quase dois meses de viagem, em que enfrentaram enormes dificuldades como falta de água, falta de alimentos e cansaço.

O interior da Terra representado por Júlio Verne corresponde a um verdadeiro “mundo perdido”, os viajantes entram em contato com criaturas e uma vegetação do início do período Quaternário (o quaternário consiste no espaço de tempo que vai de 1,8 milhões de anos atrás até os dias de hoje[2]), esta “preservação” da fauna e flora se deve ao isolamento deste mundo, que não sofreu os mesmo impactos da ação humana do mundo externo. Navegam em uma jangada através um imenso oceano subterrâneo que possui uma extensão gigantesca, comparável aos grandes mares da superfície e se deparam com feroz confronto entre um ictiossauro, e um plesiossáurio dois répteis primitivos extintos a muitas eras geológicas atrás, e conhecidos até então, pelos personagens somente através das páginas dos livros de paleontologia.

Durante todo o percurso a riqueza e a beleza na descrição dos detalhes que compõe o cenário deste mundo perdido nos evidenciam porque as viagens “vernianas” fazem um enorme sucesso até os dias atuais. Através das páginas do autor francês nos é permitido conhecer uma fauna extraordinariamente exuberante e primitiva, se deparar com animais que na superfície só existiam na forma de fósseis expostos em museus, caminhar léguas entre cavernas subterrâneas da Islândia, navegar em um imenso oceano e voltar à superfície através de um enorme e gigantesco gêiser.

[1] Revista Superinteressante: Disponível em: http://super.abril.com.br/blog/superlistas/9-escritores-que-previram-o-futuro/

[2] Período Quaternário – Disponível em:  http://www.infoescola.com/geografia/periodo-quaternario/