As memórias de um perdedor

Juca Kfouri trabalhou nos maiores veículos do jornalismo e do jornalismo esportivo nacionais, cobriu com um olhar atento de sociólogo os grandes eventos dos últimos anos, desde copas do mundo e olimpíadas até as maiores maracutaias e escândalos do mundo do esporte.

Essa rica história jornalística nos presenteou com um bom livro de memórias, “Confesso que perdi” traça um paralelo de sua carreira jornalística e suas batalhas políticas, que lhe rendeu muitas vitórias, apesar do nome do livro.

O livro editado pela Companhia das Letras traz um belo balanço da história recente do país, momentos que o autor acompanhou e participou ativamente. A luta contra a ditadura, a redemocratização, a democracia corintiana, as copas, as decepções e alegrias do esporte, todos esses momentos formam um mosaico de grandes histórias.

Para aqueles que acreditam que futebol nada tem a ver com política, este livro é a prova cabal que isso é um grande erro.

O livro tem alguns bom momentos regados com paixão e emoção; as histórias do amigo Sócrates, o amor pelas netas, elogios e respeito aos amigos jornalistas, o amor ao Corinthians – clube de coração- mas seu olhar apaixonado e crítico ao mundo político e esportivo lhe rendeu muitos desafetos da cartolagem, que teve como resultado muitos processos e intimidações.

Mais do que um livro de memórias, “Confesso que perdi”, e um relato autêntico e crítico, de um dos maiores jornalistas do país, aos grandes momentos que a sociedade brasileira passou ao longo dos últimos anos.

O Palácio de Inverno: o encanto dos romances históricos

Escrito pelo autor irlandês John Boyne, o mesmo do famoso livro “O menino do pijama listrado”, “O Palácio de Inverno” (2009) é um romance histórico, ou seja, está inserido em um gênero literário, no qual a narrativa ficcional se relaciona com fatos históricos na composição dos cenários, modos de vida e personagens. Esse tipo de romance que serve tanto como entretenimento como aprendizagem daquele período histórico retratado, é bem instigante e te faz investigar outras fontes para distinguir o que faz parte da história real e o que é ficção[1]. Trata-se de um exercício muito prazeroso, embora, nem todo tipo de leitor tenha essa disposição.

O Palácio de Inverno é a maneira de John Boyne nos oferecer uma noção da vida e dos costumes de uma época, somos transportados para Rússia Czarista e a famosa Dinastia Romanov [2] é escolhida para se misturar à ficção criada pelo autor. Essa família, que governou por oito gerações, era famosa pela ostentação em grandes Bailes à Fantasia e tantos outros eventos como banquetes, concertos, óperas, etc, em uma era de luxo e requinte. O livro retrata um momento de crise/decadência nesse estilo de vida e tem como plano de fundo alguns eventos importantes na história (Revolução Russa, Segunda Guerra Mundial e a morte de Stalin), mas Boyne não faz isso de maneira enfadonha, a trama traz reviravoltas e muitos segredos, histórias de guerra e também romance.

O personagem principal da história chama-se Geórgui Jachmenev e acompanhamos sua trajetória de vida: infância, adolescência e velhice. Porém a narrativa é construída a partir de duas linhas temporais distintas que vão se intercalando, recurso utilizado por Boyne para construir um clímax no encontro dessas linhas. Inicia-se em 1981 com Geórgui mais velho que narra os acontecimentos de forma decrescente e a segunda linha inicia-se com o Geórgui de 16 anos, em 1915, linha que ocorre de forma crescente.  Em suma, nos deparamos com um Geórgui no fim da vida que reflete sobre seus atos passados e outro Geórgui na flor da juventude ainda diante de possibilidades. O fato de que quando era garoto, em um pequeno vilarejo russo, salvou o primo do czar (o grão-duque Nicolau Nicolaievitch) de uma tentativa de assassinato, mudou completamente seu destino. A gratidão de Nicolau o levaria para São Petersburgo onde conheceria a grandeza do Palácio de Inverno e serviria à família Romanov.

Nascido em uma família pobre, como tantas outras na Rússia naquela época, Géorgui deixa de ser apenas um camponês, um simples mujique, e se transforma em um membro da Guarda Imperial do czar Nicolau II. Seu papel como guarda-costas é proteger/acompanhar o herdeiro do trono, o caçula Alexei. Assim, após seu ato heroico, se vê no mundo do czar, condes e princesas.

Essa linha temporal vai revelando a rotina dos Romanov, Geórgui em suas obrigações e responsabilidades como guarda-costas, seu convívio com a família e com personagens conhecidos historicamente como Grigori Rasputin[1], figura mística que se tornou bastante influente na corte russa ao final do período czarista, além de uma paixão proibida por uma das filhas do Czar, a grã-duquesa Anastácia. Nesse momento do livro, é possível vislumbrar insatisfação com o regime imperial em alguns personagens, Geórgui não é um deles, ao contrário sua lealdade vai até ao limite muito em decorrência de seu envolvimento pessoal com a família. Percebemos também que o autor tenta mostrar o outro lado da história, humanizando os Romanov, porém fica evidente a cegueira da família imperial diante das reinvindicações populares por condições dignas em contraste com o seu luxo excessivo.

Na outra linha temporal, Geórgui lida com o problema de saúde de sua esposa, Zoia, relembrando o seu casamento e companheirismo por mais de 50 anos. O exílio de sua terra natal, a busca por refúgio, primeiro em Paris e depois em Londres. A dificuldade de estabelecer laços afetivos no novo lugar, arrumar trabalho, se relacionar no dia a dia, enfim a realidade de um refugiado. Observamos todo o saudosismo de Geórgui e Zoia por sua pátria, e nos emocionamos quando conseguem reencontrá-la.

O livro é um romance delicado e envolvente, embora pra quem conheça um pouquinho da história russa as revelações finais não sejam tão surpreendentes, o autor consegue despertar muita emoção. Sem dúvida trata-se de um livro que merece ser lido não só pela carga histórica. Com uma escrita clara e fluida, apresenta um bom enredo, personagens interessantes, e um ar de mistério que te envolve até o último instante. Somos espectadores, assistindo aos erros e acertos de Geórgui, buscando que as duas linhas temporais se encaixem no final.

[1] https://www.megacurioso.com.br/personalidades/44817-rasputin-conheca-a-historia-de-um-dos-personagens-mais-polemicos-da-russia.htm

[1] Discussão interessante sobre romances históricos: https://www.publico.pt/2006/09/30/jornal/aprendemos-historia–a-ler-romances-historicos-100064

[2] http://www.museudeimagens.com.br/os-romanov/

A busca incessante pela verdade e o jornalismo investigativo: Uma análise do livro “Rota 66 – A história da policia que mata”

“Porque tem homem da lei

Que vira homem mal

Quando ele vem pra atirar

Quando ele caga no pau

Quando ele vem pra salvar

E sai matando geral”
Numa cidade muito longe daqui – Marcelo D2

– “Grasnavam como patos. Voavam como patos. Fomos ver, eram perus”.  O caso Rota 66 se tornou conhecido e amplamente repercutido nos grandes jornais de circulação do Brasil no ano de 1975. Envolvia três jovens de classe média alta de São Paulo que foram flagrados em alta velocidade pelas ruas durante a madrugada. Após realizarem um furto de um toca-fitas de carro de algum outro amigo que conheciam do Club Paulista, saíram em disparada. Os policiais da guarnição da Rota 66 que estavam patrulhando as ruas desconfiaram dos jovens e decidiram iniciar uma perseguição. Suspeitava-se de um roubo de veículo. O saldo final da perseguição foi a morte dos três jovens que foram fuzilados após uma suposta resistência a tiros.

A frase que inicia o parágrafo foi proferida pelo então secretário da Segurança Pública de São Paulo, militar do exército e considerado um “coronel linha-dura”. O caso dá inicio a uma ampla investigação sobre violência policial pelo jornalista investigativo Caco Barcellos. Acostumado a cobrir casos de execuções e desaparecimentos de suspeitos na periferia o jornalista se surpreende com o alvo dessa vez das operações policiais: jovens filhos da “elite paulistana”, seus pais com muito dinheiro e influência forçam uma investigação do caso e descobrem alguns atenuantes importantes como: modificação da cena do crime, ausência de pólvora na mão dos suspeitos e relato de testemunhas que afirmam não ter ouvido nenhuma troca de tiro. Apesar dos indícios coletados pelo advogado dos jovens, todos os policiais envolvidos no caso ROTA 66 foram inocentados.

Esse modus operandi do batalhão de elite da policia militar de São Paulo; a ROTA, “atirar primeiro e perguntar depois” e se necessário alterar a cena do crime para forçar um auto de resistência, veio à tona em todo o Brasil com o caso desses jovens, contudo, Caco Barcellos ao se aprofundar no rastro de vítimas deixadas pelos policiais, descobre que o caso não tem nada de acidental.  O “grande erro” dos policiais neste caso se refere a origem social das vítimas, que originou a grande repercussão na grande mídia, centenas de caso como este se repetiram a exaustão na periferia de São Paulo na década de 1970 sem valer nem mesmo alguma nota de rodapé nos jornais que seja.

Criada para combater guerrilheiros na década de 1960, a ROTA ao fim da fase de resistência armada à ditadura militar foi deslocada para os grandes centros urbanos a fim de coibir crimes comuns. Contudo, sua genealogia foi mantida, e estes policiais treinados para combater guerrilheiros armados, treinados e bem organizados, que muitas vezes preferiam a morte à captura, se utilizam agora de toda a força da repressão estatal para combater crimes comuns como assaltos e furtos.

Essa estrutura repressiva ao crime baseada no fuzilamento é de eficácia totalmente duvidosa quanto à capacidade real de diminuir crimes e até mesmo em relação ao custo benefício, pois na operação para prender os jovens de classe média que tinham cometido o furto de um toca fitas, a perseguição de carro custou aos cofres públicos (entre custo da gasolina, danos de colisões no trânsito, valor do trabalho dos policiais e armamentos) 10 mil dólares, o equivalente ao preço de noventa tocas fitas.  Contudo, sua “eficácia” em “coibir marginais” é amplamente repercutida pelos órgãos de segurança pública de São Paulo, e seus policiais frequentemente são premiados por sua estimada coragem.

“ROTA 66: a história da polícia que mata” é resultado de mais de oito anos de jornalismo investigativo, Caco Barcellos que já cobriu guerras, catástrofes naturais, guerrilhas ganhou o premio Jabuti na categoria reportagem de 1993 com a publicação deste livro[1]. As histórias narradas por ele nos demonstram que “na pátria do jornalismo declaratório, não há salvação fora do jornalismo investigativo.[2]Sua busca pela verdade é incessante, corre atrás do depoimento dos policiais e das demais autoridades, do relato de testemunhas, confronta o boletim oficial com as contradições do acontecimento. Percorre os hospitais onde as vítimas são deixadas pela polícia “ainda com vida”. Os resultados dessa busca que se inicia na década de 1970 são alarmantes, os números de mortes superam a média de “esquadrões de extermínio[3]”:

Através de fonte variadas é possível estimar que os PMs mataram entre 7500 e 8 mil pessoas até junho de 92 (…) Esse saldo supera o volume de mortos e feridos de centenas de levantes armados, revoluções e guerras históricas.”  (p. 167)

Entretanto, estes números não causam constrangimento em nenhuma autoridade oficial, pois, estes policiais nos livram de criminosos perigosos segundo os mesmos. Caco Barcellos admite que ao iniciar sua investigação também imaginava que grande parte dos assassinatos envolviam criminosos perigosos, que praticaram crimes violentos e reincidentes, no entanto, ao se aprofundar nos números dos registros oficiais da polícia de São Paulo a que teve acesso, constatou que de 3846 pessoas mortas em supostos tiroteios com a polícia no período consultado, apenas 1220 possuíam antecedentes criminais. Dessa forma, percebemos que 65% das vítimas não possuíam nenhum registro criminal antecedente, ou seja, não tiveram participação em nenhum crime anterior. Os “criminosos perigosos” representavam uma quantidade irrisória: apenas 157 mortos eram homicidas, e 24 eram latrocidas, aqueles que cometem um assassinato durante o roubo.

Pessoas registradas como operários e ajudantes de obras da construção civil compõem 20% de todas as vitimas, a grande maioria moradora dos extremos das zonas leste e sul, regiões onde se concentram a população mais pobre. Diferente do combate a guerrilha armada em que o serviço de inteligência levantava uma longa ficha do suspeito para a posterior captura, no combate ao crime comum fica nítido que as vítimas não são escolhidas por possuir algum antecedente criminal, mas pelo seu “aspecto visual de potencial ameaça”, que em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural compõe o seguinte perfil:

Homem jovem, 20 anos. Negro ou pardo. Migrante baiano. Pobre. Trabalhador sem especialização. Renda inferior a 100 dólares mensais, Morador da periferia da cidade. Baixa instrução, primeiro grau incompleto.  (pág, 168)

Caco Barcellos também desvenda o modus operandi criado para inocentar todos estes matadores, nas raras vezes em que os policiais deixam pistas de seus fuzilamentos em autos de resistência adulterados, a corregedoria da policia reúne as provas do crime e faz a acusação, contudo, o tribunal de origem militar composto por ex-companheiros de farda ignora todas as evidências inocentando-os. Em alguns casos nem o fato do suspeito ter sido baleado pelas costas é prova suficiente:  “- Ele sempre atira de frente (o policial). Mas de repente, durante a trajetória da bala, o bandido vira-se de costas e aí dá se a tragédia. (p. 336)”  Essa defesa surreal e digna de uma peça de comédia é utilizada por um advogado conhecido por ser o recordista em inocentar policiais matadores: Greco, tenente reformado do Exército.

Todavia, não é somente de estatísticas que este livro é composto, Caco tem a competência literária de não transformar tragédias pessoais em números somente, o livro, dividido em três partes narra parte de sua infância na periferia de Porto Alegre – quando obteve o contato com a violência policial pela primeira vez e seu amadurecimento como repórter investigativo trabalhando na Folha da Manhã. Resgata também o relato de parentes de inúmeras vítimas da violência policial, normalmente ignoradas pelos jornais, que costuma tratar os moradores da periferia assassinados como criminosos, sem nem ao mesmo dar uma chance ao outro lado de contar sua versão.

Por fim, também nos mostra como o policial não puxa esse gatilho sozinho: inúmeras pessoas são coniventes com essa estrutura repressiva do aparelho estatal e até mesmo se beneficiam dela: são radialistas que ganham audiência promovendo a violência policial e políticos que se elegem da mesma forma, comerciantes que financiam grupos de extermínio e jornais que transformam em suas manchetes cotidianamente; suspeitos em culpados e inocentes em condenados. Todos estes devem dividir sua parcela de culpa nas chacinas que sangram as periferias.

[1] Este livro se tornou o mais famoso de Caco Barcellos e vendeu milhares de exemplares, contudo, devido a ameaças que sofreu após a sua publicação, teve que sair do país por um longo período.

[2] Augusto Nunes –  Apresentação do livro.

[3] Esquadrão de extermínio: normalmente são grupos paramilitares não oficiais que capturam, julgam e executam suspeitos à revelia da Justiça comum. Alguns ficaram muitos famosos nas décadas de 1960 e 1970 no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Com o mar por meio

Para um jovem de vinte e cinco anos que nada ou muito pouco sabe sobre a vida, este livro é uma aula. Eu posso contar em uma mão quantas cartas troquei em toda a vida, sou filho de outro tempo, sou da geração que viu a internet nascer com toda a sua força, trazendo todo tipo de novos comportamentos e colocando a última pá de cal em algumas técnicas, como por exemplo o ato de trocar cartas.

Mesmo sendo filho de outro tempo, não deixo de compreender a beleza e a camaradagem das cartas trocadas entre José Saramago e Jorge Amado, e como ambos os autores se inspiraram, incentivaram e admiraram o trabalho um do outro.

O livro editado pela Companhia das Letras, organizado por Paloma Amado, filha do brasileiro, e Ricardo Viel, da Fundação do Nobel português, lançado em Paraty no ano passado, traz correspondências entre os dois amigos e seus familiares entre os anos de 1992 até 1998, ano em que Saramago ganha o Nobel de Literatura e Jorge Amado muito abatido pela doença fica impossibilitado de escrever. O livro conta com um projeto gráfico que só ajuda a beleza das palavras, lançado em uma ocasião especial, na casa da Festa Literária de Paraty que juntou as duas fundações que os respectivos escritores são patronos.

As correspondências demostram a profunda amizade entre os dois autores e suas famílias, sempre com palavras muito acarinhadas e com a saudade sempre acompanhando as linhas trocadas. Afinal, a agenda dos escritores dificultava um encontro.

Como é conhecido os dois autores participavam abertamente do debate público e político dos seus países e também internacionalmente em fóruns de cultura como algumas palavras trocadas demonstram. Em meio de prêmios literários, a fama, a torcida pelo Nobel, as eleições, a demora nas cartas, a chegada do fax, as polêmicas literárias e estéticas, a tardia – os dois já em idade avançada quando começam a relação epistolar – porém profunda amizade é o que fica.

Este livro fundamentalmente é uma ode a amizade, mas também é um presente para os leitores da nossa língua portuguesa, por possibilitar olharmos para mais essa faceta desses dois renomados autores. A sensação que fica ao terminar a leitura, e que conhecemos melhor e mais profundamente a literatura escrita em língua portuguesa ao mesmo tempo que podemos ler melhor as obras de Saramago e Amado.

A mais famosa história de Natal

“Nunca mais Scrooge encontrou os espíritos, mas desde aquele dia passou a viver sob o Principio da Generosidade Total. E todos concordavam em dizer que ali estava um homem que sabia celebrar o natal e manter seu espírito vivo o ano todo – se é que algum homem consegue isso.” Pág. 128.

Definitivamente Um conto de natal (A Christmas Carol) se tornou uma das obras literárias mais difundidas na cultura ocidental, reproduzida e adaptada incontáveis vezes, já se tornou filme, peça de teatro, desenho animado, musical e etc. (O personagem Sr. Patinhas de Walt Disney é inspirado no personagem de Charles Dickens). A história que conta a redenção do mal-humorado e carrancudo Ebenezer Scrooge que odiava o natal, não suportava os mais pobres e detestava qualquer forma de caridade é hoje conhecida por qualquer um. Se passando em uma Londres fria, sombria e corrompida pelos valores da modernização capitalista, temos um pequeno vislumbre de como a Revolução Industrial corrompeu laços de colaboração e solidariedade e instituiu uma nova forma de organização social baseada na alienação e exploração irrestrita do trabalho.

Charles Dickens em todas as suas obras teve a perspicácia de denunciar as mazelas da então sociedade nascente e sempre se posicionou ao lado dos excluídos: os mais velhos, os órfãos desamparados, as crianças exploradas pelas indústrias, os desempregados. Sua literatura é indispensável para quem pretende compreender a pobreza e a miséria do país mais rico e importante do Século XIX.

Nascido em 1812 na região sudoeste da Inglaterra, é o segundo de oito irmãos e filho de um funcionário da burocracia da marinha.  Sua família se mudou para Londres e após passar por alguns infortúnios teve que trabalhar desde muito cedo – distribuindo panfletos nas ruas, sendo aprendiz de um escritório de advocacia – isto, com certeza, ajudou a moldar sua forma de ver a Inglaterra recém-industrializada. A maioria de suas obras aborda críticas a sociedade inglesa de então: denuncia a pobreza e a miséria detectando muitos dos males da vida moderna, contudo,  sua crítica possuía um ar meio “inocente”, apelando para a bondade, a caridade e criticando exclusivamente a ganância. Ele apontava falhas na organização social, mas, ainda acreditava na redenção desta mesma sociedade, recorrendo a “bondade” dos corações para mudar este cenário.

 “Um conto de Natal” foi publicado em capítulos de jornal no ano de 1843, seu protagonista Sr. Scrooge é o típico estereotipo de “capitalista selvagem”: absurdamente sovina, mal-humorado, desmedidamente ganancioso e possui um profundo desprezo por todos os pobres e miseráveis. Em uma das conversas com seu sobrinho chega a afirmar:

“- Que morram, então (os pobres) – disse Scrooge – Ajudarão, ao menos, a evitar o excesso de população. E além do mais, desculpem, mas estou me lixando para tudo isso (o natal).” (Pág. 22)

Nem mesmo o natal, momento em que os corações estão mais aquecidos, é capaz de esquentar o coração do frio Sr. Scrooge.  Contudo, as coisas começam a mudar quando o fantasma do velho Marley – recém-falecido amigo e sócio do protagonista o visita em uma noite na véspera do natal.  A aparição do fantasma acorrentado, sombrio e arrependido de ter dedicado sua vida aos negócios financeiros ignorando a caridade, a tolerância, a misericórdia e a bondade mexeu significativamente com os pensamentos de Scrooge. O fantasma lamenta profundamente “Por que caminhei entre as pessoas e não olhei para elas?” (pág. 36) e informa que sua aparição era o prenúncio da visita de outros três espíritos que o assombrariam nas próximas noites.

Um incrédulo Scrooge aguarda em sua cama e no dia seguinte, quando o relógio bate doze badaladas surge o primeiro espírito que representava os natais passados, ele o levou para rever sua infância: os momentos de diversão com os amigos, seu papagaio de estimação “Robinson Crusoé”, seus momentos alegres na escola em uma época no qual sua alma ainda não havia se corrompido na busca pela riqueza e se alegrava com coisas simples.

No dia seguinte ele foi visitado pelo espirito do natal do presente, e onde chegavam, o espirito do natal cheio de esplendor era responsável por levar esperança aos desvalidos e mesmo nas casas mais humildes, ele providenciava fartura e a alegria de compartilhar. Em uma dessas visitas ele reconhece o pequeno Tim, filho deficiente de um de seus empregados – ele não se locomovia, andando somente sobre muletas ou nos ombros do pai. Muito preocupado com o destino da criança Sr. Scrooge pergunta ao fantasma o que será do futuro desse menino e recebe como resposta: “Pouco importa. Se é para morrer, que morra logo, assim diminui o excesso de população” Ao ouvir suas próprias palavras Scrooge sente um profundo remorso e arrependimento. O fantasma o repreende com o seguinte sermão: “- Homem, se o seu coração for humano e não de pedra, esqueça essas palavras cheias de maldade até descobrir o que é “excesso” e onde ele está. Você acha que vai decidir quem deve viver e quem deve morrer? É possível que você mereça menos viver do que milhões de seres iguais ao filho desse pobre homem” (pág. 80)

Já quase transformado por completo, Scrooge recebe a visita do último e mais sombrio dos espíritos: o dos natais futuros, com a sua aparição tem um vislumbre de um futuro marcado por amargura e solidão. Ele conhece um homem que em seu leito de morte não recebe visita alguma e sua morte chega a ser comemorada pelos moradores da cidade, Scrooge percebe que o pobre coitado “não possui uma mulher, homem ou criança para lhe dizer: ele foi tão bom para mim uma vez, em retribuição, vou cuidar dele agora” (pág.109). O fantasma o leva a se aproximar da lápide do pobre coitado, é então que o homem percebe a inscrição “Ebenezer Srooge”, era seu próprio futuro que observava.

No dia seguinte, ao levantar assustado exclama: “Quero viver no Passado, no Presente e no Futuro! – repetiu pulando da cama. Os espíritos  dos três viverão, de agora em diante dentro de mim” (pág. 119). Cheio de boas intenções e entusiasmado por ter uma oportunidade de mudar ser destino, Scrooge passa a sentir prazer em atividades antes rotineiras, como uma simples caminhada pela neve. Também se tornou um segundo pai para o pequeno Tim, e um bom amigo para todos, além de um homem bastante generoso.

Charles Dickens demonstra nesta simples história de natal sua eterna fé na capacidade de redenção da humanidade. Otimista em meio a um cenário de completa degradação dos laços sociais, ele acreditava que a bondade era capaz de transformar uma sociedade recheada de inovações tecnologias, mas em completa decadência moral.

Hoje, quase 150 anos depois, muitos natais se passaram, e continuamos vivemos em tempos onde as desigualdades se acentuam e os preconceitos e as injustiças se perpetuam, sendo que milhares de pessoas permanecem em condição de extrema pobreza. Ainda que a transformação de nossa sociedade exija muito mais do que um momento de epifania dos nossos “Sr. Scrooges” contemporâneos, seria um bom começo vislumbrar um mundo com mais solidariedade e generosidade

Orwell contra o fascismo

Futebol e política sempre andaram lado a lado, misturando paixões e visões de mundo e desta vez a literatura também entrou nessa complexa equação. No último encontro entre os times da Lazio e Cagliari no futebol italiano, torcedores de extrema direita da Lazio produziram um adesivo com a foto de Anne Frank vestindo a camisa do principal rival, o time de Roma – a menina judia que ficou conhecida mundialmente por seu diário narrando os horrores do nazismo – com os seguintes dizeres “Anne Frank incentiva a Roma”. Como uma tentativa de zombar da torcida adversária associando negativamente a imagem da menina judia ao rival e propagando a violência.

Esse não foi o primeiro caso de violência e racismo que a torcida da Lazio fez e infelizmente não será o último no futebol mundial, mas escrevo isso porque a resposta do futebol italiano ao fascismo e ao racismo foi a literatura. Como reposta aos atos brutais da torcida fascista em vários jogos, antes do início de cada partida foi lido trechos do diário de Anne.

Esse caso talvez ilustre os dilemas e as respostas que vivemos atualmente; tem sido cada vez mais comum abrirmos os jornais e nos depararmos com casos de racismo, xenofobia e violências de toda ordem em vários lugares do mundo e talvez a literatura e os livros guardem as chaves para que casos como esse nunca mais se repitam.

Recentemente a Companhia das Letras editou uma coletânea de George Orwell intitulada “O que é fascismo e outros ensaios”, vinte e quatro textos inéditos do autor reunidos pelo jornalista Sérgio Augusto; textos escritos entre 1938 e 1948, observam com profunda lucidez e astúcia as profundas transformações da metade do século XX. Textos que acompanham a ascensão de Hitler e Mussolini e os descaminhos da revolução de outubro.

São crônicas, resenhas literárias, cinematográficas, ensaios políticos e jornalísticos que nos apresentam um Orwell observando os caminhos do fascismo e do totalitarismo na Europa. O autor de 1984 escreve com grande lucidez e independência intelectual, em tempos de barbárie e o pensamento crítico andando no compasso do stalinismo e o marxismo ortodoxo da União soviética.

Orwell crítica obras de Joseph Conrad, Jack London, Aldous Huxley, Oscar Wilde, H. G. Wells, T. S. Eliot e Yevgeny Zamyatin, com principalmente três pontos áureos, uma resenha sobre “Minha luta” de Hitler, uma resenha sobre o “Grande ditador” de Chaplin e um ensaio sobre as principais literaturas destópicas chamado “profecias do fascismo” e, sempre tentando extrair daí uma interpretação desses tempos conturbados. O livro sempre preocupado com o futuro político da Europa não poupa críticas as nações imperialistas, e as diferentes visões de socialismo de sua época.

O relato do jogo de futebol italiano nos alerta a atualidade do fascismo, e os textos de Orwell talvez não ensinem como combater esse espectro que ronda a humanidade. Orwell como poucos, constrói e reconstrói caminhos entre a cultura e a política tentando compreender como cada qual se influencia.

Apesar de os textos aparentarem ser datados, a atualidade dos ensaios do autor de Revolução dos bichos é impressionante; livro de leitura obrigatória em tempos de Donald Trump. Orwell ainda é um interprete de nossa época, nesses ensaios nós observamos que ele completou a sua tarefa de dar o texto político o status de arte.

Crime e castigo: uma jornada de redenção espiritual

“ – Será que matei aquela velhota? Matei a mim mesmo e não a ela! Acabei comigo de uma vez só e para todo o sempre! (…)

-O que faço agora?

– O que faz? (…) Vai agora, neste mesmo instante, e fica no cruzamento de ruas, faz uma mesura, beija, primeiro, a terra que maculaste, e depois saúda o mundo inteiro, todas as quatro partes, e diz para todos em voz alta: “Eu matei”. Então Deus te dará nova vida.”  (pág. 521)

Existem crimes “justificáveis” pelas circunstâncias? Existem pessoas que se mortas fariam o mundo um lugar melhor? E um criminoso que comete um assassinato desejado por muitos e age quando ninguém mais tem a coragem de agir, é tão cruel quanto um criminoso qualquer? Qual o castigo justo para um crime cometido? Será que assassinos tem direito a uma redenção? É possível acreditar que os homens podem se arrepender verdadeiramente de atos cruéis e violentos?

Todas essas perguntas são de difícil resposta, e acompanham a humanidade desde os primórdios, muitos buscam as respostas na religião, outros na filosofia, na psicologia, na sociologia (…) A resposta obviamente não é consensual, nem de fácil reflexão, contudo outro campo do saber: a literatura, nos ajuda a buscar essas respostas e nos convida a pensar sobre temas tão espinhosos.

O Crime acompanha a humanidade desde os tempos pré-históricos, da mesma forma, cada sociedade lidou ao longo da história de maneira diferente com os criminosos – essa parcela da sociedade que não segue as normas comuns de convivência “harmoniosa”. Talvez a forma mais dramática de conduta criminosa seja o assassinato – ou seja, tirar deliberadamente a vida de um semelhante. A tradição bíblica relata o que seria o primeiro homicídio da história da humanidade: retratado no livro do Gênesis – é o episódio envolvendo a morte de Abel por seu irmão Caim devido a sentimentos como o ciúme e a raiva[1], condenado por Deus, Caim foi banido da vida em grupo e se tornou um exilado. O simbolismo dessa passagem demonstra como a derrocada moral da sociedade estava condicionada a expansão das atitudes criminosas, e também como a humanidade desde o princípio teve que decidir castigos e penas para punir aqueles que violassem as regras de convivência.

Contudo é possível relativizar o assassinato ou ele é um grande crime imperdoável? E os grandes homens da história que cometeram vários homicídios, mas visavam atingir um objetivo maior?  (reforçando a ideia de que os fins justificam os meios) e as pessoas que agem impelidas por uma necessidade material urgente? Será que a miséria justificaria um ato de extrema violência?

Dostoievski, escritor russo nascido em Moscou, aborda todas essas questões em seu livro “Crime e Castigo” publicado originalmente em 1866. Apesar de já transcorridos mais de um século e meio, a história de redenção de um jovem criminoso continua a ser um livro essencial para se compreender a natureza humana.

Rodion Românovitch Raskólnikov protagonista da história é um ex-estudante de direito que vive em um minúsculo e paupérrimo quarto alugado na cidade de São Petersburgo, seu cotidiano é marcado pela miséria material, já que suas únicas fontes de renda são o dinheiro enviado por sua mãe e algumas traduções e aulas particulares que oferecia. Contrastando com a miséria e o fracasso de sua vida profissional possui um enorme ego e uma mania de grandeza considerável, pois se enxerga como um grande homem predestinado a grandes contendas. Entretanto, de onde viria impulso material inicial para a realização destes grandes feitos? A solução encontrada foi o assassinato de Alena Ivanovna uma velhinha usurária que morava sozinha e possuía um enorme cofre escondido com muitas economias guardadas.

Durante o tempo em que planejava a contenda, Rodion passa por um profundo debate moral interno sobre seu feito, para justificar seu futuro homicídio, ele formula a tese de que grandes homens não podem se deixar abalar por crimes comuns e pequenos e que assim como Napoleão e inúmeros outros grandes homens ele estava destinado a um grande feito, não podendo se deixar abalar por um mísero assassinato de uma velhinha que não tem ninguém no mundo, afinal o dinheiro dela “estaria em mãos melhores com ele”. O planejamento e execução são simples: ele entra no apartamento e a golpeia a machadadas, contudo ao ser flagrado acaba assassinando também a inocente Isabel Ivanovna – sobrinha de Alena. Posteriormente ao ser quase surpreendido na cena do crime por terceiros foge sem praticamente nada do dinheiro que pretendia furtar, dessa forma se encontra em um duplo dilema: precisa escapar de uma possível investigação policial e continua numa situação de penúria financeira.

O assassinato e a “ação do livro” se desenrolam logo nos primeiros capítulos, pois a principal questão que perpassa todo o restante da obra é o sentimento de culpa de Rodion, – às vezes a narrativa se resume a monólogos internos por períodos muitos extensos e somos inseridos no drama psicológico do protagonista compartilhando de suas angústias – ele tem pesadelos, sofre surtos de loucura, sente uma necessidade urgente de confessar a alguém o crime cometido, ao mesmo tempo em que sabe que não pode ser capturado, pois não existem provas de seu ato criminoso. O antagonista da história – Detetive Porfiry Petrovich – ao não poder incriminar Rodion se utiliza de um jogo psicológico para fazer o jovem se entregar.

Seu grande dilema é sobreviver com o peso da culpa nos ombros (Rodion se decepciona ao perceber que não faz parte do rol dos grandes homens da história, capazes de justificar atos cruéis em nome de um ideal ou de um projeto futuro e descobre que o assassinato o afeta profundamente), ou confessar seu crime, pagar por seus pecados e tentar se redimir. Um personagem que exerce uma enorme influência em sua decisão é Sófia Marmêladov, uma moça doce e ingênua que devido a uma série de infortúnios familiares se prostitui para fugir da pobreza extrema, ela se torna sua confidente e Rodion encontra nela um motivo para se perdoar e tentar viver uma nova vida.

Dostoievski apesar de retratar uma Rússia do século XIX paupérrima, em que infortúnios se acumulam sobre grande parte da população e que a miséria, a fome, a pobreza e a degradação moral estão em todo o lugar, consegue evocar um otimismo sobre a condição humana, Rodion se redime pelo amor e ao pagar por seus pecados em um exílio na Sibéria é acompanhado pelo amor incondicional de Sofia, que apesar de toda a degradação moral de seu corpo prostituído, consegue manter sua alma pura e intacta, e sua compaixão foi capaz de resgatar Rodion da loucura da culpa de um crime terrível. “Crime e Castigo” é uma belíssima (e triste ao mesmo tempo) história de recomeço, um verdadeiro renascimento espiritual:

“Eles queriam conversar, mas não conseguiam. As lágrimas lhes turvavam os olhos. Estavam ambos pálidos e magros, mas em seus rostos doentes e lívidos já brilhava a aurora do revigorado futuro e da completa ressurreição para a nova vida, fora o amor que os ressuscitara. Um coração encerrava inúmeras fontes de vida para o outro”  (pág. 678)

[1] E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar. E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. Gênesis 4:3-8

GRANDES “ANTI-HERÓIS” DA LITERATURA

Segundo a wikipedia o “Anti-herói é o termo que designa o protagonista que não possui as virtudes tradicionalmente atribuídas aos heróis.” Muitas vezes em algumas narrativas o protagonista perfeito e extremamente virtuoso não é carismático o suficiente para cativar o público, dessa forma quem acaba se tornando o personagem preferido são os anti-heróis – aqueles sujeitos que não estão muito preocupados em seguir um padrão moral muito elevado. Tanto no cinema, como na literatura e até mesmo nos desenhos animados é possível observar personagens considerados anti-heróis que se tornaram muito queridos pelos espectadores: Han Solo (da franquia Star Wars – personagem interpretado por Harison Ford que rouba a cena de Luke Skywalker), Jack Sparrow (protagonista com o típico perfil de anti-herói- da franquia ‘Piratas do Caribe’), recentemente o sucesso do personagem Deadpool transportado dos quadrinhos da Marvel para os cinemas nos mostrou que as pessoas não estão mais com paciência para super-heróis muito certinhos. E quem não se recorda do Pica-pau? (o exemplo mais politicamente incorreto dos desenhos infantis).

Na literatura personagens marcantes que protagonizaram clássicos inesquecíveis são caracterizados por possuírem este perfil. Pessoas que praticaram ou praticam atos moralmente reprováveis esporadicamente e que não buscam necessariamente um objetivo nobre, mas que devido ao carisma acabam tendo seus atos aprovados pelos leitores. Essa identificação com personagens falhos que às vezes acertam e às vezes erram se dá justamente por serem versões mais realistas da natureza humana, também  muito sujeita a falhas e equívocos. Afinal, é mais fácil se identificar afinal com um “Han Solo” (um sujeito ganancioso e egoísta, mas que depois se arrepende e volta para salvar seus amigos) do que com um Superman (todo poderoso e perfeito).

Nossa proposta, portanto, é montar uma lista com os cinco maiores (e mais carismáticos) anti-heróis da literatura:

5º LUGAR: Tom Sawyer – As aventuras de Tom Sawyer (Mark Twain)

O personagem infantil de Mark Twain é uma criança mentirosa, preguiçosa, que foge frequentemente da escola, mas que conquistou a simpatia de todos. Um dos personagens mais marcantes da literatura “infanto-juvenil” norte americana, Tom Sawyer vive o cotidiano do sul dos Estados Unidos pré-guerra civil, um lugar com várias particularidades regionais e vivencia uma série de aventuras: testemunha um assassinato, descobre um tesouro enterrado, fica preso em uma caverna(…). Muito da simpatia do personagem se deve a sua “malandragem”: apesar de pouco assíduo as aulas possuía um conhecimento não-formal – oriundo da vivências “nas ruas” que o ajudava a lidar com o complicado mundo adulto.

4º LUGAR: Pedro Bala – Capitães da Areia

Outro personagem infantil, Pedro Bala é a criança líder dos Capitães da Areia, menino abandonado vive em um trapiche em Salvador com várias outras crianças de rua: Gato, Boa-vida, Sem-pernas, João Grande, Querido de Deus, Professor. Cada uma com suas características particulares e que possuem em comum o abandono. Para sobreviver praticam furtos, mas Pedro Bala impõe um rígido código moral às crianças que precisam respeitar sua autoridade, cumprir algumas normas de convivência e estão proibidos de roubarem os colegas. Seu papel de liderança é reforçado pela sua força (afinal era o maior capoeirista da cidade) e pelo carisma (trata todos como irmãos mais novos).

3º LUGAR: Arséne Lupin – Arséne Lupin: O ladrão de casaca (Maurice Leblanc)

O maior ladrão de todos os tempos! Arsène Lupin é a tentativa francesa de ludibriar Sherlock Holmes[1]. Um sujeito galanteador, lutador de jiu-jitsu, ilusionista e dotado de uma inteligência extraordinária que simplesmente zomba das autoridades europeias em plena Belle Époque: foge da prisão pela porta da frente, rouba castelos medievais de milionários excêntricos, furta joias reais e colares trancados em cofres invioláveis, nunca é pego em flagrante e está sempre um passo a frente de seus perseguidores.  Sua simpatia se deve essencialmente ao seu perfil “Bom vivant”: não é o típico ladrão ganancioso, mas que somente “livra as pessoas de bens desnecessários”, também desaprova a violência e nunca rouba os mais pobres.

2º LUGAR: Capitão Nemo – 20.000 léguas submarinas / A ilha misteriosa (Jules Verne)

Capitão Nemo aparece primeiramente no livro 20.000 léguas submarinas de Jules Verne, um sujeito misterioso, misantropo, extremamente inteligente e recluso que vive em um submarino elétrico – O Nautillus – isolado do mundo exterior, apenas aparece na superfície para abater grandes navios encouraçados no oceano Atlântico, contudo seu passado não é revelado no primeiro livro e não conhecemos em um primeiro momento as razões de seu ódio à civilização. É somente quando publicado “A ilha misteriosa” que conhecemos sua identidade oculta: O príncipe Dakkar um indiano que descontente com a guerra e o imperialismo resolve lutar contra a dominação britânica em sua nação, entretanto sua revolta é derrotada e ele perde esposa, filhos e toda a sua família, a partir desse incidente ele decide “declarar guerra ao mundo” e viver isolado em solidão na sua “fortaleza submarina”.

1º LUGAR: Robin Hood – As aventuras de Robin Hood (Alexandre Dumas)[2] 

O primeiro lugar não poderia deixar de ser do maior anti-herói de todos os tempos! Personagem envolvido em lendas e histórias anglo-saxões sua existência real é um mistério para os historiadores. Seus feitos foram transmitidos através de poemas e da tradição oral pelos povos habitantes das florestas de Barnsdale e Sherwood. Alexandre Dumas adaptou essas histórias e criou um Robin Hood típico de seu romantismo: (quase um D’artagnan de arco e flecha) galanteador, extremamente habilidoso e dono de uma liderança quase que inapta, ele lidera um bando de proscritos contra a tirania do xerife de Notingham. Sua fama de “bom ladrão” se deve ao fato de nunca recorrer à violência, oferecer um banquete a todos os nobres, eclesiásticos e normandos que furtava pelas florestas, mas que ao encontrar um sujeito pobre ou necessitado não pensava duas vezes em oferecer seus serviços e sua ajuda.

[1] Em uma das histórias de Lupin ele chega a encontrar o famoso detetive inglês “Herlock Sholmes” e não desperdiça a oportunidade de furtar seu relógio.

[2] A obra foi publicada postumamente. Howard Pyle escritor e ilustrador norte-americano também criou uma versão literária infanto-juvenil de Robin Hood, mas que não chega perto da sofisticação do estilo romântico de Dumas.

Marcelo Moutinho

Marcelo Moutinho, um dos organizadores de Conversas de Botequim, é autor dos livros: Ferrugem (Record,2017), Na dobra do dia (Rocco, 2015), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006), Memória dos barcos (7Letras, 2001) e do infantil A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013). Organizou a coletânea de ensaios Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010), além das antologias O meu lugar (Mórula, 2015), Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005) e Prosas cariocas – Uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), das quais é também coautor.

Moutinho participou de várias coletâneas, entre elas O Livro Branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + Bonus track (Record, 2012), Como se não houvesse amanhã – 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana (Record, 2009) e Dez cariocas (Ferreyra Editor, Argentina, 2009). E nós tivemos o prazer de trocar algumas ideias com o escritor sobre o livro Conversas de Botequim e sua carreira.

LC– De onde surgiu a ideia do livro?

MM – A ideia do livro foi do Henrique Rodrigues e nasceu de episódio curioso. O Henrique organizou, há poucos anos, uma coletânea de contos inspirados em canções dos Beatles. Na ocasião, a Prefeitura do Rio promoveu um debate sobre a obra, o que foi noticiado na coluna do Ancelmo Góis, no jornal O Globo. Ao ler a nota, o jornalista Ruy Castro envio mensagem à coluna fazendo um pequeno protesto. Ele argumentava que, se fossem contos inspirados em Noel Rosa, tudo certo com o apoio da Prefeitura do Rio. Mas que não estávamos em Liverpool. Henrique recebeu a crítica com bom humor e acabou acolhendo a ideia. Então me chamou para organizar a antologia a quatro mãos.

LC – Por que Noel? Qual é a importância dele para o Brasil atual?

MM – Noel foi um dos mais extraordinários artistas brasileiros. Ao abdicar dos arroubos linguísticos que caracterizaram a música popular até sua época, apostando numa dicção próxima à da coloquialidade, ele revolucionou a lírica da canção brasileira. O uso de diálogo em “Conversa de botequim” e da emulação da gagueira em “Gago apaixonado” são exemplos de sua originalidade. Isso sem mencionar a questão temática. Com “Mulato bamba”, de 1931, Noel é o primeiro compositor, no universo do samba, a abordar a homossexualidade.

Além disso, tinha uma impressionante capacidade de trânsito entre espaços geográficos e grupos sociais nem sempre próximos. Ele nasceu numa família de classe média, mas frequentou o subúrbio e as favelas da cidade. O objetivo não era “levar cultura”, mas aprender, dialogar. Suas canções surgem justamente da interseção entre asfalto e morro, numa relação que não é de solapamento, e sim de troca. Num momento como o que vivemos, de cisão política e social, de completa incompreensão da alteridade, a obra de Noel é, mais que atual, necessária.

LC– Falar de Noel Rosa é falar sobre a cidade do Rio de Janeiro, uma cidade em profunda transformação e desigualdade. Como você compreende o Noel cronista da vida Carioca?

MM– Noel registrou muitas dessas transformações. O aparecimento do filme sonoro, em “Não tem tradução”, é um exemplo. A veia de cronista aparece também no registro tipos da cidade, como o João Ninguém (“que não é velho nem moço / come bastante no almoço / pra se esquecer do jantar”) e a Maria Fumaça (“Perdeu o rompante/ Foi presa em flagrante roubando um baralho / Não faz mais conflito/ Está no distrito lavando o assoalho”). E na referência a espaços como a Lapa, a Penha e, claro, a Vila Isabel. A experiência do trânsito pelas diversas cidades que coexistem dentro do Rio de Janeiro – e aqui lembro a máxima de Marques Rebelo: “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro” – serve como matéria-prima para suas canções, que de certa forma fazem uma crônica musical do Rio de Janeiro.

LC – O livro tem uma bela diversidade de autores, como foi o processo de juntar todas essas pessoas em conjunto com Henrique Rodrigues?

MM – A proposta era fazer uma seleção que refletisse a variedade de registros da literatura brasileira contemporânea. Por isso reunimos escritores oriundos das diferentes regiões do país, de gerações e propostas estéticas também díspares. Queríamos que o diálogo entre conto e canção fosse igualmente um encontro de estilos, vivências, trajetórias.

LC – Você faz parte de uma geração de outros escritores como Luiz Antônio Simas, Fernando Molica e muitos outros que tem privilegiado a vida cotidiana, as esquinas do dia a dia, as conversas de botequim, os dramas cotidianos da vida urbana carioca. Como você vê o conto nesse contexto, ele é o lugar da vida cotidiana na literatura?

MM – No meu caso, sim. Mas cada contista tem sua obra, sua proposta estética e temática. De minha parte, gosto de trabalhar com um universo de personagens desglamourizados. Em “Ferrugem”, por exemplo, os protagonistas são uma trocadora de ônibus, um cover do Roberto Carlos, a caixa de supermercado… Os contos narram histórias aparentemente banais, em cujo interior há, no entanto, tensões, dramas, dores, epifanias. Na orelha do livro, o Alberto Mussa destacou que o assunto dos contos é “a paisagem humana, a vida que passa”. Acho que definiu o livro com precisão. Gosto de trabalhar com essa lente sobre as pequenezas.

LC – Não podemos deixar de ler seu trabalho sem pensar no Samba e na cultura popular do Rio. Qual é o papel do Samba na sua literatura?

MM – Há algumas semanas, no Café Literário da Bienal, o mediador do debate me perguntou qual seria o papel do escritor em uma escola de samba e como essa vivência – hoje, sou diretor de ala no Império Serrano e no Império da Tijuca – se reflete em meus textos. A segunda parte da questão me pareceu é simples de elucidar. Tenho tentado, livro após livro, seja no conto ou na crônica, trazer um pouco do universo do samba – e do carnaval – para o âmbito da literatura. Até porque esses assuntos em geral são tratados como algo externo à nossa produção ficcional, embora façam parte do cotidiano de milhares de brasileiros e representem uma viga fundamental, originalíssima, da cultura que construímos aqui. Creio que por várias razões. Desde a visão do saber não acadêmico ou de origem não europeia como elemento alheio às “grandes questões literárias” até o distanciamento que muitas vezes os escritores mantêm com relação a tal universo. Por localização geográfica ou simples (e legítima) falta de interesse

Difícil mesmo é dar conta da primeira pergunta, que agora você retoma. Sempre procurei seguir o conselho dos sambistas mais antigos, que falam em “pisar devagarinho” quando você chega numa roda ou num terreiro de escola. E, mesmo tendo conquistado certa intimidade com o mundo do samba e do carnaval, a premissa de estar ali como escritor em nenhum momento sobrepujou a presença como componente. No entanto, é claro que o olhar do ficcionista permanece. O senhor que limpava, com o rodo, o banheiro da quadra inspirou um dos personagens de “A palavra ausente”. O primeiro desfile no Império Serrano se transformou em crônica de “Na dobra do dia”. As caminhadas pela Avenida Edgard Romero, em Madureira, entre os camelôs da Estrada do Portela, as idas ao barracão onde são produzidas as alegorias, as conversas regadas a cerveja com gente  que guarda a memória do samba e do subúrbio, certamente se refletem nos textos de “Ferrugem” e dos demais livros.

Como se vê, não tenho a resposta definitiva. Mas, nessa época tão pródiga em certezas absolutas, até que é bom ficar cavoucando uma interrogação.

LC – Para finalizar Marcelo, tem alguma novidade que você pode contar para gente?

MM – Lancei dois livros este ano – “Ferrugem” e “Conversas de botequim” –, de modo que os novos trabalhos por enquanto estão ainda na fase de projeto. Há um trabalho a produzir, ao lado do Luiz Antônio Simas, sobre a vedete Zaquia Jorge, que ficou conhecida como “A Estrela de Madureira”. Comecei a trabalhar nos contos de um próximo livro, que ainda vai demorar. E ando com bastante vontade de escrever crônicas. Quem sabe não volto em breve?

A homenagem ao Poeta da Vila

“Nascido em 1910 no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro, Noel de Medeiros Rosa viveu apenas por 26 anos. Esse curto período foi suficiente para que inscrevesse seu nome na história da cultura brasileira, que revolucionando a lírica de nossa canção. Em 259 composições, Noel evocou os personagens e o cotidiano da cidade sob um registro originalíssimo. Ao abdicar dos arroubos linguísticos que na época distinguiam a música popular, fez da simplicidade a marca de suas letras”

No ano passado parte do mundo da literatura e do cânone se deparou com um Nobel de literatura – prêmio máximo – dado a um músico por excelência; um absurdo para alguns, a mais bela homenagem a poesia musicada para outros. Em terras tupiniquins, Marcelo Moutinho e Henrique Rodrigues juntos com a Mórula Editorial, organizaram uma bela homenagem aos 80 anos do Poeta da Vila – Noel Rosa um dos maiores compositores de samba da cultura brasileira.

Conversas de Botequim – 20 contos inspirados em canções de Noel Rosa é uma ode a multiplicidade e a beleza da obra de Noel Rosa, cronista da vida cotidiana do Rio de Janeiro; o livro congrega 20 autores das mais variadas gerações e filiações literárias, com grandes mestres da canção e das letras como Nei Lopes e Aldir Blanc.

Onde ambos prestam uma homenagem oculta a João Máximo nas suas respectivas epígrafes, que junto com Carlos Didier foi biógrafo de Noel e fundamental autor para pensar a história do sambista e como ela se confunde com a história do Rio de Janeiro.

Os contos são os mais variados, com referências diretas as letras do compositor de Vila Isabel, outros são referências a sentimentos e a momentos das letras, alguns são referências claras aos títulos, até Noel se transforma em personagem em um deles.

A diversidade de transpor a poesia e a música para a forma do conto é retrato da própria diversidade dos autores e das histórias colocados nessa edição. Nas páginas desse livro os autores captam a obra de Noel Rosa em seus diversos caminhos e mantém o olhar de cronista do autor captando grandes temas do contemporâneo.

Os contos têm valor estético sozinhos, mas sem dúvida esse é um livro para ser ouvido, antes ou depois de ler cada conto vale a pena escutar a música, sem dúvida será uma outra experiência, que vai estabelecer conexões e novas descobertas sobre a obra de Noel.