Um artesão da literatura: a vida e a “obra” de Max Perkins

Sempre que pensamos nos livros, a figura romântica do escritor boêmio sentado em um café ou em uma biblioteca escrevendo e tomando notas para o seu trabalho, toma a nossa imaginação. A imagem desse intelectual ronda nossas cabeças, muitas vezes construída pelo próprio mercado editorial. Entretanto raramente a figura do editor de livros nos vem à cabeça, uma figura esquecida no próprio processo da leitura.

Afinal, você se pergunta quem editou/edita seu escritor favorito ao ler um livro?

O processo editorial pode ter contribuições significativas à narrativa apresentada por um original – como por exemplo uma mudança de título ou dar nova forma para uma história. Não só isso, o editor historicamente é uma figura que descobre escritores importantes e eleva novas vozes para o centro da história da literatura, incentivando e quebrando limites estéticos que o próprio mercado de livros impõe.

A história do editor americano Maxwell Evarts Perkins, narrada pelo biografo A. Scott Berg no livro Max Perkins um editor de gênios – publicado originalmente em 1978 nos EUA[1]–  que em 2014 chegou às livrarias brasileiras pelo selo Intrínseca, é um exemplo de como é importante o trabalho do editor não só na construção estética de um livro e na dinâmica comercial das vendas e dos contratos literários – formas de trabalho que são mais evidentes – mas também muitas vezes trabalhando como amigo, irmão, confidente, publicitário, crediário etc.

Max Perkins ajudou a construir a literatura americana como nós conhecemos hoje, descobriu e incentivou vários importantes nomes da ficção estadunidense, modificou a forma do mercado editorial americano. Dentre as suas principais descobertas estão F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolf; pelos dois primeiros já podemos perceber o tamanho da contribuição de Max Perkins para o mundo da literatura. A relação de Perkins com Wolf foi tão emblemática e poderosa que este trecho do livro inspirou um recente filme sobre a relação dos dois, no Brasil chamado de “Mestre dos Gênios” (2016).

Max Perkins estabeleceu uma forma de trabalho invejada por seus contemporâneos como o próprio livro demostra e rompeu barreiras da edição construindo uma imagem e uma forma de trabalho que inspira, mesmo inconscientemente, os atuais editores. Sempre na coxia do mercado editorial, Max raramente aparecia publicamente ou omitia opiniões estéticas, ao mesmo tempo que forçava os limites do mercado editorial para outros lugares enfrentando resistência muitas vezes na própria editora a Scriber´s em Nova York. Max nunca se deixou levar pelo glamour da vida literária e nunca recebeu os holofotes de seus escritores, isso se transformou em uma forma de trabalho fundamental para Perkins.

O livro de A. Scott Berg é fantástico porque remonta a trajetória de uma figura central para a literatura americana do século XX não só pelo seu trabalho como editor de grandes figuras, mas a vida de Max Perkins acompanha as principais transformações que os EUA passaram ao longo dos anos, da crise de 1929 às barbáries da Guerra, e Max como um atento observador as acompanhou de perto.

Todos esses acontecimentos e todos esses fatos são animados por uma pesquisa em arquivos e por um grande acervo de cartas que nos deixa a cada página mais próximos dessa figura excêntrica e intrigante que foi Maxwell Evarts Perkins participando ativamente dos diálogos, a pesquisa de Berg é fundamental para todo aqueles que se interessam pelas histórias das pessoas que dão vida à literatura e que por muitas vezes não damos a devida importância.

A pesquisa de Berg pode nos inquietar a pesquisar quem são os Max Perkins da literatura brasileira? Quem são os artesões da literatura que editaram os nossos grandes mestres?

[1] Que foi transformado em filme pelo diretor Michael Grandage e intitulado Mestre dos Gênios (2016) o qual escrevemos para o blog uma resenha https://letracapitularblog.wordpress.com/2016/11/05/mestre-dos-genios-2016/ e que motivou a leitura do livro.