Antonio Candido (1918-2017)

Na tarde desta sexta-feira chegou-me a notícia que Antonio Candido de Mello e Souza faleceu, aos 98 anos em São Paulo. A imediata tristeza pela perda de um dos maiores interpretes do Brasil, me fez lembrador do primeiro contato com os textos do Professor, foi ainda no ensino médio, quando as aulas eram ministradas a partir do seu importante livro “Formação da literatura brasileira: momentos decisivos”, um clássico publicado em 1959 e lido até hoje. O objetivo deste texto é prestar uma pequena homenagem recolhendo relatos e textos importantes sobre sua vida e obra.

Candido foi um professor que formou diversas gerações de pesquisadores, políticos e intelectuais brasileiros, um homem de convicção política clara – um socialista, nunca perdeu a vontade do diálogo e fundamentalmente um crítico e um interprete da realidade brasileira. Por isso algumas homenagens:

“Deixo registrado aqui mais do que minha memória, meu sentimento: como pessoa Antonio Candido também se destacava. Homem de compromissos políticos, nunca se calou. Tampouco perdeu suas qualidades humanas deixando-se contaminar pelo azedume. Discordamos em apreciações políticas, sem perder o respeito e, sobretudo, a convivência harmoniosa. Nessa, Antonio Candido também foi mestre: sabia que a cortesia permite guardar limites, protegendo quem a cultiva tanto de proximidades excessivas e desnecessárias quanto de arroubos que muitas vezes inviabilizam o convívio” Fernando Henrique Cardoso

“intelectual de imensa cultura, homem tão sério quanto engraçadíssimo, Antonio Candido foi o melhor amigo dos meus pais e presença marcante na minha infância” Chico Buarque

“Para Antonio Candido a arte e a literatura respondem à necessidades profundas do ser humano. E foi sobre isso que ele refletiu em “O direito à literatura”, outro ensaio igualmente importante, em que defende a necessidade de estender a todos, sem distinção de classe, o acesso a este bem imaterial” Nota familiar

“o Brasil perde o intelectual, o crítico, o escritor (excelente escritor!), o professor, o mestre. Em um momento tão duro como o que passamos, essa despedida é ainda mais triste” Lygia Fagundes Telles

“Espantosa sua lucidez” Raduan Nassar

“Morreu um grande mestre. Morreu o mestre do Brasil” Nélida Piñon

“Tenho enorme orgulho de ter convivido com o companheiro Antonio Candido. O Brasil perdeu hoje mais do que um dos maiores intelectuais da nossa história. Perdemos um ser-humano excepcional, que dedicou sua vida à cultura, à democracia e à justiça social. E o fez com excelência em todos os campos. Foi um corajoso adversário de qualquer tipo de autoritarismo e já nos anos 40 fundou a União Democrática Socialista. Lutou contra a ditadura militar e durante toda sua vida se manteve fiel aos ideais da esquerda democrática. Não foi apenas fundador do PT, foi militante cotidiano do partido, um petista sempre presente no bom combate em defesa do desenvolvimento nacional. Participou da elaboração de programas de governo, viajou o país e teve uma importantíssima atuação a favor da transformação social e do direito dos trabalhadores. Neste momento de pesar, transmito meu abraço fraterno aos familiares e amigos” Luiz Inácio Lula da Silva

“Viver 98 anos não deve ser fácil, mas para ele parece ter sido uma agradável aventura. Mais raro ainda é viver quase cem anos sem nunca mudar de lado, fiel às suas convicções, aos seus princípios, aos amigos e à sua própria obra literária, sem se queixar da vida nem nunca levantar o tom de voz para convencer ninguém” Ricardo Kotscho

“o intelectual jamais ensarilhou as armas da crítica, participando sempre dos combates políticos de seu tempo. Isso significou um apoio incondicional a todo/as que combateram as ditaduras do Estado Novo (1937-1945) e do regime militar (1964-1985) bem como uma irrestrita solidariedade aos movimentos sociais e partidos políticos que, nos períodos da democracia política (1945-1964 e no pós-1985), se empenham por reformas sociais e econômicas em profundidade na sociedade brasileira” Nota do site Marxismo 21

“o lugar da Formação na estante fica ao lado das obras clássicas de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Como estes mestres haviam feito para os padrões da sociabilidade e da vida econômica, AC historia o vir-a-ser do sistema literário nacional, relativamente estável, auto referido, com dinamismos e problemas próprios, que cabe identificar e estudar. Neste sentido tangível, trata-se de um livro fundador” Roberto Schwarz.

“Atribui-se a Goethe a consideração de que as novas gerações devem herdar das antigas raízes e asas. É o que se pode dizer do legado de Antonio Candido em todos os sentidos e áreas do conhecimento, da militância, da vida em que esteve presente. Também, é claro, de sua reflexão sobre o Brasil, visto nela, sobretudo, através das lentes da sua literatura e da crítica literária” Flávio Aguiar

Foto: Kiko Ferrite