A Festa da fresta

A Festa Literária Internacional de Paraty de 2017 foi uma festa diferente, sob muitos aspectos. Uma festa que homenageou Lima Barreto, escritor negro, carioca do início do século XX e que acompanhou a primeira república com um olhar crítico de um cronista, viu as principais transformações que a cidade do Rio de Janeiro passou naquele momento. Um escritor que como poucos, conseguiu captar as principais tensões de um Rio escravocrata e elitista e que construiu sem dúvidas, uma das principais interpretações desse momento e que só agora conseguimos prestar – mesmo que pequena – uma homenagem ao escritor do subúrbio do Rio.

A rica escolha do homenageado da festa pela curadora Joselia Aguiar, não foi o único desafio, este ano vimos uma Flip mais diversa, com mais mulheres do que todos os anos e com tema do racismo e suas variadas e complexas formas sendo debatido e refletido.

Sem dúvida a escolha de Lima anima debates fundamentais para a sociedade brasileira, como a própria escrita do autor nos coloca. Essa festa como nenhuma outra, aproveitou as frestas que a sociedade brasileira tem para compor um rico debate sobre os desafios da cultura brasileira, e de reavivar um autor fundamental para todos aqueles que querem construir uma sociedade mais justa e igualitária.

Esse ano a festa sofreu com a crise e a crise se transformou em oportunidade de construir uma festa mais compacta, dando centralidade aos debates e perdendo a opulência que afasta os leitores. Uma festa que teve uma programação paralela intensa, com diversas casas propondo importantes debates seguindo a verve da programação principal.

A escolha de Lima é sem dúvida uma escolha política que reafirma debates e promove uma festa mais feminina e negra, sem perder a profundidade literária e sem dar espaço a espetáculos vazios para agradar o cânone. Sem sombra de dúvida uma festa que honrou a prosa e a crônica de Lima, que cantou um Brasil que precisa se redescobrir a partir de sua obra. Sem perder a universalidade, trazendo vários autores internacionais que sempre foram uma marca da festa.

A festa movimenta o mercado literário trazendo lançamentos e esse ano Lima Barreto foi a marca, com relançamentos e novas edições, vários livros de crítica e análise de sua obra e com destaque à biografia editada pela cia das letras e escrita por Lilia Moritz Schwarcz “ Lima Barreto: Triste visionário”.

Mas toda fresta, toda vereda é só um pequeno caminho que indica que ainda há muito a construir. A Flip ainda é um espaço para poucos, infelizmente isso é reflexo de um país que tem muito a caminhar no acesso à cultura e principalmente no acesso à leitura; os livros são uma chave para se compreender o mundo, o perigo desses espaços são transformar o livro em um lugar distante do grande público, onde “só eruditos” possam chegar nele.

Esse talvez seja o desafio da Flip para os próximos anos, elevar a radicalidade do projeto literário de Lima Barreto na própria estrutura da festa. Sem dúvida a Flip deste ano foi especial e tem muito a construir para o futuro.

 

 

“Nós não somos nada nesta vida” – A denúncia do preconceito racial em Clara dos Anjos

Cassi partira, fugira… Agora é que percebia quem era o tal Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) (p. 136)

Clara dos Anjos é um desses livros que esconde a genialidade na simplicidade. Uma história curta, com poucos personagens, mas que extrapola as cerca de 120 páginas do romance. Nele encontramos o que há de melhor em Lima Barreto: as descrições da paisagem do subúrbio carioca, uma narrativa sobre o cotidiano da vida “das pessoas comuns”, o tom irônico e ácido sobre um Rio de Janeiro fragmentando e desigual e uma profunda crítica contra o racismo cínico tipicamente brasileiro.

Afonso Henriques de Lima Barreto nascido no Rio de Janeiro em 13 de maio de 1881, filho de mulatos livres e bem instruídos (algo incomum durante sua época) – seu pai era tipógrafo da imprensa nacional e a mãe professora primária – foi o homenageado da 15ª Flip (Feira Literária Internacional de Paraty). A escolha, mais do que merecida, corrige parcialmente uma injustiça histórica, afinal Lima Barreto considerado um dos mais importantes escritores brasileiros sempre teve o talento subestimado por seus contemporâneos e recebeu pouco reconhecimento em vida – candidatou-se, por exemplo, em 1919 a vaga na Academia Brasileira de Letras, mas seu pedido foi sequer considerado!

Lima Barreto entendia que sua origem social e condição de mulato impediam a sociedade brasileira de enxergá-lo como um intelectual, e se tornou um dos maiores denunciadores e combatentes do racismo na literatura. Ingressou na Escola Politécnica, mas não se formou, abandonou o curso de engenharia e passou a atuar como jornalista e cronista na mídia impressa, também atuou na secretária de guerra na seção burocrática após ser aprovado em um concurso público em 1903. Sua primeira obra como escritor e que o rendeu um relativo reconhecimento foi “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1909) que retrata a história de um mulato que tentou se formar e se tornar “doutor”, pois achava que assim não seria discriminado, contudo sua obra máxima e mais importante é o grande clássico da literatura brasileira: Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915) que narra o cotidiano de Policarpo Quaresma, subsecretário do Arsenal de Guerra, um patriota apaixonado pelo Brasil e pelos livros, que mora no Rio de Janeiro durante o governo de Floriano Peixoto.

O livro ‘Clara dos Anjos’ foi publicado postumamente em 1948 e foi a última obra escrita do autor antes de sua morte em novembro de 1922, é uma história com traços “naturalistas-realistas” bem marcantes, durante a leitura fica perceptível como o “caráter” dos personagens seria determinado pelo “ambiente/meio” que crescem e vivem. O tom ácido e critico do autor às injustiças e a pobreza da periferia carioca também percorre todo o livro, o subúrbio é chamado por Lima Barreto de “refúgio dos infelizes”, o lugar de união de todos os desafortunados, em que: “por esse intricado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhe cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro”. (p.81).

A protagonista Clara é uma mulata[1], pobre e ingênua que mora no subúrbio carioca com seus pais. Sua família vivia uma vida pacata e harmoniosa, seu pai era um humilde trabalhador dos correios, e a mãe cuidava dos afazeres domésticos e zelava pelo bem-estar da família. Tudo na rotina deste “pobre lar honesto” se transforma quando ela conhece Cassi Jones em uma roda de violão numa festa local. Este sujeito “um típico malandro carioca” é filho de pais bem abastados e que “não queria nada com a vida”, vivia na vadiagem e seduzindo jovens moças incautas. Várias de suas investidas anteriores já tinham ocasionado em tragédias familiares, contudo, ele não se emendava, pois, sua mãe “superprotetora” sempre o acobertava.

O livro narrado em terceira pessoa apresenta ao leitor um aspecto de “tragédia anunciada”, afinal desde o início da narrativa já conhecemos a índole de Cassi e sabemos quais são suas intenções com a inocente Clara, só nos resta mesmo esperar pelo pior. A moça que idealizava um romance capaz de vencer as barreiras de cor e classe, ao se descobrir grávida, faz planos de fugir e viver o amor “impossível”, entretanto é surpreendida com a fuga e o sumiço imediato do rapaz.

Arrependida e arrasada emocionalmente Clara finalmente desperta para a realidade e percebe que: “A inocência dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa fé, e o seu ardor juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam… Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata” (…) Ele contava, já não se dirá com o apoio, mas com a indiferença de todos pela sorte de uma pobre rapariga como ela. (p. 136).

Ela pensou em se matar, mas por fim decide contar aos pais sua situação de “desgraçada de honra” e abandonada pelo namorado. Sua mãe sempre muito honesta e correta imediatamente opta por ir se acertar com a família do Senhor Azevedo (Pai de Cassi Jones). Ao solicitar o casamento, Clara é enxotada pela Dona Salustiana (mãe do rapaz), que considera um insulto a remota possibilidade de seu filho se casar com uma “mulatinha”, afinal:  “-Ora, vejam vocês, só! É possível? É possível admitir-se meu filho casado com gente dessa laia.. .Qual!… Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina – que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!.” (p. 142). Ao se deparar com tal reação e pensar no vexame que sofrera Clara  finalmente passa ter “noção exata de sua situação na sociedade” (p. 143). Aquela dolorosa cena final é descrita por Lima Barreto de forma primorosa e é definitivamente um dos encerramentos mais emocionantes da literatura brasileira

“Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um grande acento de desespero:

-Mamãe! Mamãe!

-Que é minha filha?

-Nós não somos nada nesta vida”

(pág. 144)

[1]“Clara dos anjos foi o primeiro romance a ter como protagonista uma mulher negra. Ele gritou contra o racismo, contra a corrupção, contra o apadrinhamento político e o poder político nas mãos das mesmas famílias sempre, que a gente vê até hoje. Se a sociedade da belle époque tivesse ouvido o Lima Barreto, não estaríamos vivendo o horror que vivemos no Brasil” — disse Luciana Hidalgo.

Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/livros/se-tivessem-ouvido-lima-barreto-na-epoca-nao-estariamos-vivendo-esse-horror-no-brasil-diz-luciana-hidalgo-21642041#ixzz4oHeo1XVM

https://educacao.uol.com.br/biografias/afonso-henriques-de-lima-barreto.

http://www.cartaeducacao.com.br/artigo/o-que-lima-barreto-pode-ensinar-ao-brasil-de-hoje/