Viagem ao centro da Terra: Uma aventura de exploração geográfica

-Sei. Mas não é certo que este ar acabará por adquirir a densidade da água?

-Sem dúvida. Sob uma pressão de setecentas e dez atmosferas.

-E mais abaixo?

-Ainda aumentará mais a densidade.

-Então como desceremos?

-Colocando pedras nos bolsos.

Colocando pedras nos bolsos?!  O senhor tem resposta para tudo!

O grande propagandista das ciências, e pioneiro da literatura de “viagens extraordinárias” Júlio Verne é considerado por muitos o “pai da ficção cientifica”. Em seus livros somos transportados para os ambientes mais inóspitos e os oceanos mais afastados no submarino Nautillus, ou viajamos para a órbita lunar em uma “nave” atirada de um canhão, percorremos o continente africano no sentindo oeste-leste em cinco semanas através de um balão e até mesmo viajamos para o interior da Terra. Também foi responsável por criar personagens marcantes que ficaram imortalizados na literatura como o capitão Nemo comandante do submarino Nautillus, que decepcionado com o mundo se isola da sociedade percorrendo lugares inóspitos, ou o excêntrico britânico Philleas Fogg que realiza uma aposta afirmando que seria capaz de realizar a volta ao mundo em 80 dias.

Nascido em Nantes na França em 1828, abandonou os estudos em direito para seguir carreira literária, foi um autor que combinava muito bem imaginação com o saber científico. Apesar de ter vivido durante o século XIX, muitos de seus livros anteciparam invenções e situações do século XX. Em seu livro Da Terra a Lua (1865), por exemplo, anteviu inúmeros detalhes da viagem realizada pelo projeto Apolo que permitiu a Neil Armstrong tocar a superfície lunar, “como a duração da jornada (97 horas na ficção e 103, na realidade), o número de tripulantes (três), os locais de lançamento (a Flórida) e de pouso (o Mar da Tranqüilidade, na Lua), Até mesmo o regresso à Terra, com o pouso no Pacífico e o resgate por um navio (…).[1]

Quando ‘Viagem ao centro da Terra’ foi publicado em 1864 Verne já era um autor conhecido e popular, principalmente entre o público juvenil. A obra segue um padrão típico das viagens exploratórias: uma preocupação em fundamentar suas histórias com explicações científicas, e um grupo de personagens conhecendo e explorando lugares até então desconhecidos da maior parte da humanidade.

A aventura tem início quando o professor e cientista alemão Otto Lidenbrock juntamente com seu sobrinho Axel descobrem na biblioteca um antigo livro de um alquimista islandês chamado Arne Saknussemm datado do século XVI. Estes escritos estão impressos em um antigo código rúnico e exigem um esforço significativo para ser traduzido.

A mensagem relatava que era possível chegar ao centro da terra a partir da entrada de um antigo vulcão inativo localizado na Islândia de nome “Sneffels”, ainda segundo as runas o antigo alquimista teria realizado previamente o percurso com sucesso. A história é escrita a partir da perspectiva do sobrinho Axel, como se fosse um diário de campo relatando os acontecimentos da viagem. No caminho para a viagem de exploração contratam um guia local para acompanhá-los chamado Hans (seus conhecimentos sobre “sobrevivência” serão de vital importância no caminho). Eles adentram nas galerias subterrâneas do vulcão adormecido no dia 1º Julho, e depois de todas as desventuras emergem para a superfície da Terra no dia 27 de Agosto, ou seja, foram quase dois meses de viagem, em que enfrentaram enormes dificuldades como falta de água, falta de alimentos e cansaço.

O interior da Terra representado por Júlio Verne corresponde a um verdadeiro “mundo perdido”, os viajantes entram em contato com criaturas e uma vegetação do início do período Quaternário (o quaternário consiste no espaço de tempo que vai de 1,8 milhões de anos atrás até os dias de hoje[2]), esta “preservação” da fauna e flora se deve ao isolamento deste mundo, que não sofreu os mesmo impactos da ação humana do mundo externo. Navegam em uma jangada através um imenso oceano subterrâneo que possui uma extensão gigantesca, comparável aos grandes mares da superfície e se deparam com feroz confronto entre um ictiossauro, e um plesiossáurio dois répteis primitivos extintos a muitas eras geológicas atrás, e conhecidos até então, pelos personagens somente através das páginas dos livros de paleontologia.

Durante todo o percurso a riqueza e a beleza na descrição dos detalhes que compõe o cenário deste mundo perdido nos evidenciam porque as viagens “vernianas” fazem um enorme sucesso até os dias atuais. Através das páginas do autor francês nos é permitido conhecer uma fauna extraordinariamente exuberante e primitiva, se deparar com animais que na superfície só existiam na forma de fósseis expostos em museus, caminhar léguas entre cavernas subterrâneas da Islândia, navegar em um imenso oceano e voltar à superfície através de um enorme e gigantesco gêiser.

[1] Revista Superinteressante: Disponível em: http://super.abril.com.br/blog/superlistas/9-escritores-que-previram-o-futuro/

[2] Período Quaternário – Disponível em:  http://www.infoescola.com/geografia/periodo-quaternario/

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