As aventuras de Huckleberry Finn– Uma visita aos Estados Unidos “pré-Guerra civil” as margens do Rio Mississipi.

Dissemos que não tinha casa melhor que uma jangada. Outros lugares parecem apertados e sufocantes, mas não uma jangada. A gente se sente realmente livre, à vontade e confortável numa jangada.

Samuel Langhorne Clemen nasceu em uma pequena vila no Missouri, localizada nas margens do rio Mississipi em 1835, cresceu no meio de navios, marinheiros, missionários, e aventureiros de toda a espécie. Quando adulto virou timoneiro de barco a vapor e com isso conseguiu colecionar muitas histórias do “Grande Mississipi”. Tornou-se famoso, contudo, através do pseudônimo Mark Twain[1] que utilizou em sua carreira como jornalista e escritor. Possui uma vasta e extensa bibliografia e se tornou um dos mais renomados escritores norte-americanos, suas histórias evocam um ‘Estados Unidos interiorano’, de pessoas simples e de vidas comuns, também se utilizava de um vocabulário regional, enfatizando as “várias falas” dos distintos grupos que dividam o território sulista.

As memórias de sua infância e juventude no Missouri estão de certa forma presentes nos dois grandes livros que o alçaram ao posto de pai da “literatura autenticamente americana[2]”: As aventuras de Tom Sawyer (1876) e As aventuras de Huckleberry Finn (1884). Ambas as histórias tem como protagonistas crianças que são consideradas “desajustadas”, ou seja, tem enorme dificuldade em obedecer aos adultos, não gostam de frequentar a escola e a igreja, e estão sempre envolvidos nas confusões locais. Contudo, demonstravam uma enorme criatividade e um saber “não formal” que os auxilia em suas empreitadas cotidianas, se utilizando de recursos “politicamente incorretos” como a mentira, para enganar as outras crianças e se dar bem. Em um dos trechos mais famosos do primeiro livro, Tom Sawyer utiliza sua “lábia” para se livrar da sua tarefa doméstica (pintar uma cerca da casa de sua tia Polly) e trocar de lugar com alguns garotos que o importunavam, além de receber em troca por isso “doze bolas de gude, um pedaço de vidro azul, uma coleira de cachorro, seis bombinhas, uma chave que não destrancava nada, um soldado de chumbo faltando a cabeça… e a cerca tinha três camadas de cal”.

‘As aventuras de Huckleberry Finn’ é de certa forma uma continuação da história anterior, ainda que possa ser lido separadamente. A história começa exatamente após o final dos acontecimentos de ‘As aventuras de Tom Sawyer’, contudo os protagonistas são trocados, Huck Finn que até então teve um papel secundário na narrativa, sendo apenas um garoto companheiro de aventuras passa a ir morar com uma boa família que o adota (o pai estava desaparecido). Seu pai que é um alcoólatra violento e o havia abandonado retorna, recupera a sua custódia e o leva para morar consigo em uma ilha. Huck Finn foge, mas ao mesmo tempo em que não queria a companhia paterna também não pretendia voltar para a vida “domesticada” e “civilizada”, queria a liberdade de andar pelo mato sem preocupações, de pescar e caçar à tarde, de navegar usando uma balsa e procurar tesouros de pirata com seus companheiros.

É nesse momento que começa a aventura que seria classificada como o “grande romance norte-americano[3]”: Huck Finn monta uma jangada e decide descer o rio Missispi fugindo de St. Louis, sem destino previamente definido. Ao embarcar encontra ‘Jim’ um escravo doméstico que estava fugindo, pois sua senhora planejava o vender para as plantações de algodão em Nova Orleans. Imerso na cultura sulista Huck tem muita resistência em ajuda-lo, pois não queria ser visto como um “abolicionista safado”, mas aos poucos a convivência vai tornando os dois verdadeiros amigos e o garoto passa a lutar pela liberdade de Jim o ajudando na empreitada de escapar para um estado livre.

Durante a jornada os dois colecionam inúmeras situações inesperadas, e o instinto de sobrevivência de Huck os salvam praticamente todas às vezes. Na trajetória pelo sul dos Estados Unidos passam pelo Missouri, Kentucky, Arkansas e Tennessee. Em todas as cidades que aportavam encontravam situações típicas que retratavam a cultura local e que acabam se envolvendo indiretamente como: superstições sobre espíritos do além, amores proibidos, grupos de bandidos salteadores aterrorizando vilas, disputas de famílias rivais resolvidas com duelos de armas, linchamentos públicos de pequenos criminosos (era muito comum punir os ladrões jogando piche e penas em cima deles), e vigaristas aplicando golpes se aproveitando da ingenuidade da população.

 Vários temas são abordados nessa jornada: o dilema moral de ser contra uma norma instituída que era a escravidão, por exemplo, está presente a todo instante na mente de Huck, ele fica com muito receio de ajudar um escravo a fugir (tem medo até de ser condenado por Deus), somente quando percebe a humanidade em Jim (conhece sua história pessoal, seus medos, sonhos e ambições) é que este conflito interno é vencido e ele opta por lutar pela liberdade do amigo o auxiliando na fuga. A lealdade também é abordada, pois, aparecem inúmeras oportunidades para Huck denunciar a fuga de Jim, mas ele não consegue trair a confiança de seu amigo. A crueldade da justiça dos adultos também assusta nosso protagonista, apesar de condenar a ação dos vigaristas que enganavam a todos na cidade, ele fica muito assustado ao ver uma cena em que uma multidão corre para praticar um linchamento: “Bem, fiquei doente de ver aquilo; e tive muita pena dos dois vigaristas desgraçados, e parecia que nunca mais neste mundo eu ia conseguir sentir raiva deles. Os seres humanos podem ser terrivelmente cruéis uns com os outros”. Uma crítica ao saber formal e institucional, pois, no inicio da história Huck demonstra claramente uma enorme dificuldade de se adaptar ao ambiente educacional, é uma criança que não é adepta dos livros (ao contrário de Tom Sawyer que gosta muito de romances de piratas), e ele mesmo se considera alguém com pouca inteligência, contudo ao longo da trajetória, sua criatividade e seu saber “não formal” são responsáveis por lhe salvar a vida inúmeras vezes, esse tipo de inteligência que não é valorizada na escola acaba sendo de enorme utilidade ao longo da aventura.

Mark Twain em “As aventuras de Huckleberry Finn” realiza um profundo relato da vida cotidiana dos estados do sul, nessa jornada em busca de liberdade o protagonista passa por diversas experiências que o transformam profundamente. O solitário convívio com um escravo fugitivo transforma sua percepção de realidade, e a amizade sincera e leal que ambos estabelecem serve de motivação para ele questionar as raízes institucionais e culturais da escravidão.

Referências consultadas:

Huck Finn map – https://prezi.com/xonimsftmiil/huck-finn-map/

Autor de Hoje: Mark Twain – http://www.lpm-blog.com.br/?p=8750

As aventuras de Huckleberry Finn – http://www.lpm-blog.com.br/?tag=as-aventuras-de-huckleberry-finn

[1] “Há uma história por trás do pseudônimo usado por Samuel Langhorne Clemens. Mark Twain é uma expressão que aprendera a usar nas suas viagens fluviais pelo Mississipi, uma medida de profundidade do rio”. Disponível em: http://www.lpm-blog.com.br/?p=8750

[2] http://www.lpm-blog.com.br/?tag=as-aventuras-de-huckleberry-finn

[3] “Toda a literatura americana moderna se origina de Huckleberry Finn. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” Ernest Hemingway