A distopia totalitária de ‘Fahrenheint 451’: Uma crítica à repressão política e a superficialidade

Que progressos estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimados a mim; hoje em dia, eles se contentam em queimar meus livros”. Sigmund Freud

 O século XX ficou marcado pela ascensão dos regimes totalitários. Práticas como perseguição e repressão a opositores políticos, queima pública de livros, cerceamento das liberdades civis e censura à imprensa se tornaram comum em diversos países. O fracasso liberal em manter a estabilidade política e econômica – simbolizado pela crise de 1929 – permitiu o ressurgimento de práticas que os iluministas consideravam renegadas ao passado das monarquias absolutistas. A profunda crise enfrentada pelo mundo no pós-1ª guerra concebeu a oportunidade para a ascensão de figuras como Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, que canalizavam a decepção e o medo generalizado em um sentimento de ódio contra minorias, no culto a personalidade de um “grande líder” e no combate a opositores.

Este ambiente de difusão do totalitarismo foi captado pela literatura, e um novo gênero de ficção cientifica se consolidou: dos futuros distópicos. A utopia[1] é um termo utilizado para designar o “não lugar”, ou seja, um lugar fictício que é “bom demais para ser verdade”, quando substituímos o prefixo u por dis, criamos um efeito negativo. Dessa vez é um lugar fictício, mas que apresenta características muito piores que as da nossa realidade atual[2].

Alguns futuros distópicos imaginados pelos autores de ficção científica ficaram marcados pelo vanguardismo de suas análises, antevendo situações que somente iriam se concretizar décadas depois. Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo (1932) previu a difusão de drogas alucinógenas que “vendem a felicidade em um comprimido”, George Orwell em 1984 (1949) criou um futuro em que câmeras de vigilância estão presentes em todos os lugares e o “Grande Irmão” vigia a tudo e a todos, Anthony Burgess no livro Laranja Mecânica (1962) imaginou um mundo de extrema violência onde gangues juvenis espalham o terror e o governo precisa recorrer a práticas de condicionamento comportamental para controlar os criminosos.

Ray Bradbury (1920 – 2012), norte-americano nascido em Illinois, se incluiu no rol de grandes autores da ficção científica com o livro “Fahrenheit 451”. O título é uma alusão à temperatura em que o papel incendeia. Seu futuro distópico diferentemente de outras ficções não retrata um ambiente com muitas inovações cientificas hi-tech mirabolantes, ou a presença algum aparato tecnológico de vigilância. O cenário retratado é os Estados Unidos em um futuro próximo (existem poucas referencias temporais na história) a sociedade existente é controlada por uma instituição conhecida como os “bombeiros”, só que ao contrário dos dias de hoje, eles não existem para apagar incêndios, já que as casas são à prova de combustão. Sua função é invadir casas e queimar livros.

A leitura, ou o simples ato de possuir livros é considerado um crime punido na maioria das vezes com a prisão ou morte. A história é contada a partir da perspectiva de Guy Montag, um membro do corpo de bombeiros que cumpre sua rotina no trabalho, contudo um fato marcante em um de seus incêndios cotidianos o faz refletir profundamente. Uma das “criminosas” prefere morrer abraçada aos seus livros em vez de fugir dos incêndios, isto o faz pensar sobre o que há de tão importante e interessante nesses livros para fazer as pessoas morrerem por eles. Com isso ele furta um livro da pilha de livros recém-queimados e leva para casa, e passa a se tornar, portanto, um criminoso. Também conhece uma garota: Clarisse McClellan, ela é diferente de todos que já conhece, pois é uma pessoa questionadora, que não aceita as verdades impostas pelo regime, que gosta de leituras, de passeios ao ar livre (a sociedade retratada no livro se utiliza exclusivamente de automóveis para se locomover em altíssimas velocidades pelas autopistas, não existem calçadas ou lugares para trânsito de pedestres), e que “desperdiça” horas do dia observando as paisagens nos parques.

Aos poucos Montag começa a perceber o aparato autoritário a sua volta e como vive em uma sociedade disfuncional, seus diálogos com Clarisse o revelam como a vida foi se tornando vazia e superficial :

– As pessoas não conversam sobre nada.

– Ah elas devem falar de alguma coisa!

– Não, de nada. O que mais falam é de marcas de carros ou roupas ou piscinas e dizem: “Que legal!”. Mas todos dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém.

Posteriormente ao chegar em casa e conversar com sua esposa: Mildred Montag (uma pessoa completamente imersa na tecnologia alienante das culturas de massa) chega a seguinte conclusão: “Que engraçado quando uma pessoa não se lembra de onde nem quando conheceu a esposa ou o marido (…) Como uma pessoa fica tão vazia? Perguntou a sim mesmo. Quem esvazia a gente?”.

Ao investigar as bases ideológicas que sustentam esse regime autoritário, Montag descobre que na verdade o papel dos bombeiros é meramente simbólico, eles apenas caçam alguns dissidentes, a maioria das pessoas optou por abandonar os livros de livre e espontânea vontade. Quem foi o responsável por essa mudança comportamental foram às tecnologias que permitiram uma grande difusão da “cultura de massa alienante”. O sonho das pessoas neste “novo mundo” é comprar quatro televisões gigantes de alta definição e preencher os quatro lados da parede para assistir uma espécie de “reality show” que retrata a vida de outras famílias comuns.

Quando seu superior Capitão Beatty, chefe dos bombeiros, desconfia de suas atividades subversivas e o convoca para uma audiência a verdade é revelada:

-Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não!

Com isso, aos poucos:

 – Clássicos reduzidos para se adaptarem a programas de rádio de quinze minutos, depois traduzidos novamente para uma coluna de livro de dois minutos de leitura, e por fim, encerrando-se num dicionário de dez a doze linhas. (…)

 A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta (..) Por que aprender alguma coisa além de aperta botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?

Dessa forma, Bradbury nos apresenta uma sociedade autoritária na qual o aparelho repressivo não necessita de atuar diretamente como no Ministério da Verdade presente totalitarismo orweliano, as próprias pessoas imersas em uma cultura de massa superficializada, e preocupadas somente em “como as coisas funcionam” e não com os “porquês” optam por se afastar da intelectualidade. O livro transmite uma mensagem bem pessimista, pois Montag percebe aos poucos que não adianta combater um regime opressivo se a própria sociedade se sente confortável com a ignorância. Sua saída é fugir da cidade e se juntar a um grupo de exilados nômades que decora os livros – para enganar as autoridades – e recitam uns aos outros durante a noite em volta de uma fogueira para manter a “cultura literária” viva.

A característica mais marcante deste romance é que ao olhar para a sociedade norte-americana da época (1953) Bradbury antecipa uma característica essencial contemporânea: a existência de uma geração saturada de informações supérfluas, cercadas de ruídos e que busca no consumismo desenfreado a solução para todas as suas frustações pessoais gerando inúmeros transtornos psicológicos.[3] Percebemos, portanto, como não é mais necessário queimar livros ou proibi-los como os nazistas faziam para se combater uma ideia, basta deixá-los cair no esquecimento.

[1] “Não foram poucas as vezes em que algum grupo de pessoas almejou um lugar fictício que é literalmente muito bom para ser verdade. O termo, porém, só entrou para o imaginário popular depois de cunhado pelo estadista e escritor britânico Thomas Morus em 1516.” – Revista Galileu.

[2] “O termo “distopia” foi ideia do pensador John Stuart Mill, que em 1868 sentiu necessidade de uma palavra que explicasse bem o suficiente a inversão dos valores utópicos de Morus na era industrial” – Revista Galileu.

[3] O consumismo se torna preocupante quando as pessoas compram algo para conseguirem adquirir uma característica ou outra que não fazem parte da sua identidade. “Ela adquire aquele objeto acreditando que vai também adquirir aquelas características, quando se trata de uma falsa vaidade”. “Quando o consumismo acontece em exagero acaba se tornando um problema psicológico, pois trata-se de alguém que está abandonando a própria identidade para viver uma ilusão” – Disponível em: <http://www.segs.com.br/saude/10748-consumismo-exagerado-pode-desenvolver-problemas-psicologicos.html&gt;

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