Doze anos de escravidão: O nascimento de uma nação

“As vozes dos representantes patrióticos, que proferiam discursos sobre liberdade e igualdade, e o entrechocar das correntes que prendiam os escravos soavam quase em uníssono. Havia um mocambo de escravos bem à sombra do capitólio (…)” Solomon Northup, p. 29

Imortalizada nas telas dos cinemas em 2013 pelo diretor Steve McQueen, a história de Solomon Northup, teve amplo destaque na premiação do Oscar ganhando o prêmio de melhor filme, melhor atriz coadjuvante (Lupita Nyong’o) e melhor roteiro adaptado. A história de um negro livre nascido na cidade de Nova York sequestrado, vendido como um escravo no sul dos Estados Unidos e que permaneceu doze anos em plantações de algodão no estado da Lousiana é um relato, escrito pelo próprio Northup[1], de denúncia das atrocidades do sistema escravocrata e ocupou um papel importante na luta abolicionista norte-americana. Seu livro juntamente com o romance “A cabana do pai Thomás” de Harriet Beecher Stowe serviu para difundir os ideiais abolicionistas nos estados do Norte.  Steve McQueen, diretor do filme afirma: “Eu não podia acreditar que nunca havia ouvido falar deste livro. Tão importante quanto o diário de Anne Frank, só que publicado cem anos antes”.

Existem poucos registros biográficos sobre Solomon Northup, as circunstâncias de sua morte são incertas e não existem registros oficiais sobre suas atividades após 1857.  Sabe-se somente que após passar os doze anos no estado da Lousiana como escravo passou a lutar pela causa abolicionista proferindo palestras e contando sua experiência enquanto escravo.

Northup era filho de um ex-escravo nascido em Rhode Island, que durante sua vida foi capaz de acumular uma quantidade de dinheiro e comprar sua liberdade, nasceu e cresceu em Nova York (julho de 1808), homem culto e alfabetizado (tocava violino, por exemplo) sempre foi um homem livre e trabalhava em várias atividades – agricultura, marcenaria, transporte com navegação em balsas, etc -, isto o permitiu acumular posses para adquirir uma propriedade e construir uma casa no vilarejo de Fort Edward, feito não muito comum para negros na época, se casou com Anne Hampton em 1929 e teve três filhos.

Teve uma educação acima da média e era presbiteriano, sua erudição o permitiu constituir um relato bem consistente da rotina da vida no sul dos Estados Unidos, afinal, a alfabetização era algo proibido aos negros nesses estados desde a grande revolta de Nat Turner em 1831 na Vírgina[2], sendo assim, Doze Anos de Escravidão é um dos poucos relatos sobre a escravidão a partir da visão dos próprios escravizados (Durante o século XIX, principalmente no Brasil, se tornou muito comum os viajantes europeus de tendência politica mais liberal escreverem relatos sobre os horrores da escravidão, contudo, um relato escrito por um ex-escravo a próprio punho é um documento bem mais raro).

A história começa em 1841 quando enganado por mercadores de escravos Northup aceita uma proposta para tocar violino em restaurantes e festas de luxo, como estava em uma temporada de descanso, não pode rejeitar a oportunidade de conseguir um dinheiro extra. Entretanto, no meio da viagem é drogado e transportado para um mocambo de escravos em Washington e posteriormente é enviado de navio para o estado da Lousiana. Sua condição jurídica de homem livre é ignorada por todos e ganha uma nova identidade “Platt”.

No início sua resistência é maior e insiste na tese de que é um homem letrado e livre, nascido no Norte, contudo, a violência dos senhores “quebra” sua resistência e ele vai se tornando no decorrer da história uma pessoa de personalidade resiliente e resignada. Ou seja, vai se adaptando rapidamente ao sistema escravista, falando pouco, aceitando os castigos, ignorando as injustiças a sua volta e apenas “sobrevivendo”. Em seus relatos menciona que muitas vezes pensou em tirar a própria vida, mas a vontade de rever os familiares o impedia desse ato final.

Com o tempo também vai se conformando de que uma fuga seria impossível e que o futuro o reservava uma vida de servidão, viveu em distintas fazendas e conheceu distintos senhores, contudo quem o marcou profundamente foi o Senhor Epps. Os castigos, açoites, abusos, a labuta diária e a pior face da escravidão estavam representadas nesta figura. Considerado o pior senhor de todas as fazendas em que trabalhou: suas variações de humor repercutiam diretamente na intensidade dos castigos sobre os escravos. A sua postura externa de submissão, contudo ocultava uma ânsia por liberdade:

Não houve um só dia, ao longo dos dez anos que pertenci a Epps, em que eu não consultasse a mim mesmo sobre a perspectva de empreender uma fuga. (…). Nenhum homem que jamais tenha sido colocado em tal situação pode imaginar os mil obstáculos com que um escravo se depara, quando tenta tomar um caminho para sua fuga. As mãos de cada homem branco erguem-se contra ele

Os numerosos relatos de fugas fracassados difunidades entre os cativos o impede de tomar este rumo. Pântanos com crocodilos, cães de caça raivosos que dilaceram pessoas em segundos, além da presença de inúmeros caçadores de recompensa especialistas em recapturar escravos fugidos compõem um ambiente de obstaculos intransponíveis. Sua volta para o Norte é na verdade fruto de uma singela coincidência, (que ele considera uma intervenção do divino), Northup escreve uma carta pedindo socorro e entrega para um abolicionista canadense que estava prestando serviços para a fazenda do Sr. Epps. Ao passar por Nova York a carta chega às mãos de um advogado conhecido que o resgata, colocando fim a sua estadia na Lousiana em 1853.

Após estes doze anos vivendo como escravo na Lousiana, Northup chega a seguinte conclusão: “Não é por culpa do escravagista que ele seja cruel, quanto isto é devido ao sistema sob o qual ele vive”. Ou seja, independente da bondade ou maldade dos senhores (que podem tornar a vida do escravo menos ou mais desagradável), o sistema escravista é injustificavel sob qualquer ponto de vista humanista. As ideologias que sustentavam a escravidão – a de superioridade racial e a de que o escravo era uma mera mercadoria (portanto, posse inquestionável de seu senhor) estavam profundamente enraizadas na cultura sulista norte-americana e eram tão importantes na manutenção desse sistema injusto quanto à violência das chibatadas.

A base econômica (o algodão, a cana-de açucar, o milho […]) que permitiu o nascimento de uma nação foi edificado com o sacríficio de sangue de milhares de negros que excluídos dos direitos presentes na “Declaração da Independência[3]” lutaram e lutam até hoje por liberdade e igualdade.

*O nascimento de uma nação é o nome do filme de 1915 de D. W. Griffith que fez um enorme sucesso nos Estados Unidos. Filme de alto teor racista que retrava os negros sob uma perspectiva “imbecializada” se tornou um verdadeiro difusor dos ideais da Ku Klux Klan.

[1] Existem controvérsias sobre a autoria da obra, muitos apontam uma coautoria do redator David Wilson

[2] Nat Turner era um líder religioso e foi a principal liderança de uma das rebeliões de escravos mais famosas dos Estados Unidos – Sua insurreição durou dois meses, contudo posteriormente foi preso e enforcado. Após estes levantes as leis sobre escravidão se tornaram mais duras nos Estados Unidos, foi proibido o acesso deles a leitura, as armas e a proibição de uniões matrimoniais. – Disponível em: http://www.biography.com/people/nat-turner-9512211

[3]Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade” – Declaração de Independência dos Estados Unidos – 4 de julho 1776.

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